segunda-feira, 28 de abril de 2014

sábado, 26 de abril de 2014

Conhece-te a ti mesmo, Brasil: procrastinar é preciso

Pensei em deixar esse post para amanhã, mas resolvi escrever assim mesmo.

Continuando essa série do blog, tento desvendar e compreender algumas características do povo brasileiro, posicionando-me quanto à minha identidade cultural e sensação de pertencimento. Na minha percepção, que não é necessariamente  verdade, mas apenas uma fração dessa verdade, já identifiquei algumas características interessantes:

1) O brasileiro sente uma necessidade visceral de ganhar, e isso tem alguns desdobramentos intrigantes (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2012/11/conhece-te-ti-mesmo-brasil-1.html)

2) O brasileiro é intrinsecamente impontual (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2013/01/conhece-te-ti-mesmo-brasil-2.html);

3)  O brasileiro não é alegre e nem cultiva a alegria de viver (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2013/03/conhece-te-ti-mesmo-brasil-3-questao-da.html).

4) Para os brasileiros, o silêncio é raro e caro (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2013/12/conhece-te-ti-mesmo-brasil-4-questao-do.html). Frequentemente, só é possível obter silêncio mediante uma forte imposição que, às vezes, transforma certos temas em tabu.

5) O brasileiro está fadado a esperar e fazer-se esperar (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2014/01/conhece-te-ti-mesmo-brasil-5-arte.html)

6) O brasileiro cultiva as aparências mas, por aqui, nem tudo o que parece é (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2014/01/conhece-te-ti-mesmo-brasil-6-questao-da.html).

7) Brasileiros são mestres do improviso (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2013/08/conhece-te-ti-mesmo-brasil-imponderavel.html).

8) Brasileiros são imprecisos ao cumprir normas (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2014/01/conhece-te-ti-mesmo-brasil-7-questao-do.html), pois não há uma educação normativa eficiente dos cidadãos.

9) Brasileiros extrapolam o individual para imiscuirem-se nos negócios alheios (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2014/02/conhece-te-ti-mesmo-brasil-8-questao-da.html).

Chegamos, então, à décima característica: o gosto pela procrastinação.  A palavra difícil, e para mim bela porque de difícil pronúncia, significa adiar o início das coisas, deixando para depois o que pode ser feito agora.

Aqui se repete bastante que o "brasileiro deixa tudo para última hora", e é verdade.  Parece que essa característica contribui bastante para a impontualidade (2), a espera como modo de viver (5), a necessidade de improvisar (7), e a dificuldade em cumprir normas (8), principalmente em relação a prazos.

Seria bastante revolucionário para nós fazer as coisas de um jeito diferente, menos estressado e mais organizado, ao invés de cultivar o caos cotidianamente.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O Descobrimento do Brasil - 22 de abril de 1500

Em primeiro lugar é importante destacar que o dia do "Descobrimento" não é comemorado no Brasil. Fiquei observando, mas houve poucas referências à data.  Talvez as escolas ainda façam algum tipo de comemoração, mas no geral, a data passou em brancas nuvens.

O Descobrimento e a Independência do Brasil são dois dos mitos fundacionais da nossa nação, e o primeiro tem uma função fundacional dupla, já que marca o início da construção nacional e determina simultaneamente a nossa diferenciação em relação aos outros povos.

Oficialmente, o Brasil foi "descoberto" pelos portugueses - ocupado, na verdade -embora existam relatos anteriores, mapas e vestígios afirmando o contrário (cf. http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2014/03/mapa-mundi.html).  O município brasileiro de Cabo de Santo Agostinho comemora uma versão alternativa, de que o Brasil foi descoberto por Vicente Pinzón (http://www.cabo.pe.gov.br/personagens.asp), mas há quem defenda que chineses, fenícios, vikings,  etceteras chegaram bem antes aqui.

Entre nós o evento "Descobrimento" é percebido de forma isolada em relação à conquista ou ocupação, e diferentemente do que ocorre com Colombo, Pedro Álvares Cabral não assumiu nenhum caráter heróico. Aliás, em relação a esse personagem, impressiona o silêncio e o esquecimento em que foi lançado.

Só lembro da comemoração dos 500 anos do Descobrimento, em 2000, mas esse é tema para outro post.




domingo, 20 de abril de 2014

Do dia do Índio ao Descobrimento: 19 e 22 de abril

Normalmente faço uma reflexão sobre os marcos comemorativos do calendário oficial e as respectivs efemérides, para analisar o seu significado para a memória coletiva.

Em relação ao dia do Índio, refletimos sobre a sua origem no Brasil, através da Lei nº 5540/53 e o seu significado nos posts http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2011/04/19-de-abril-dia-de-que-indio.html e http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2012/04/19-de-abril-dia-do-indio.html.

Mas dessa vez preferi realizar uma análise sequencial porque, embora totalmente acidental, o fato de que no calendário o dia do Índio é anterior ao descobrimento nos permite fazer associações entre duas efemérides próximas.

Sendo anterior no calendário, o Dia do Índio pode  reforçar a informação de que já existia populações aqui antes do Descobrimento. Entretanto, para mim,  já reflete uma uma idéia apocalíptica.  Praticamente, o nosso calendário afirma que tudo ia bem no dia 19 de abril, mas que dali a três dias...

Tudo no mundo indígena mudou com o contato.  É comum encontrar narrativas evolucionistas afirmarem que os índios brasileiros estavam na Pré-História (baseados na forma de produção econômica) e "saltaram" para novos tempos a partir do contato com civilizações mais evoluídas.

Esse tipo de narrativa parece apontar a assimilação da cultura "menos desenvolvida" por outra "civilizada" como um benefício, ainda que para isso fosse necessária uma certa violência, minimizando o extermínio para maximizar o benefício histórico do contato (CARRETERO, 2010, p. 221).

As imagens do descobrimento mostram cenas isoladas do contato que, em linhas gerais, pretendem destacar o seu caráter amistoso de intercâmbio, principalmente em relação a troca de produtos e na participação dos nativos na primeira missa realizada no território brasileiro.

Sabe-se que a ocupação posterior não foi pacífica - como até hoje não é - e que esse evento do descobrimento oficial por Portugal revestiu-se do caráter fundacional da nacionalidade e da identidade brasileiras, especialmente porque o nosso povo é concebido como mestiço, a fusão de "três raças" indígena, negra e portuguesa.

Na escola ambas as efemérides possuem uma base lúdica e emocional, principalmente durante a infância, para garantir a adesão dos jovens brasileiros à narrativa comum do Estado Nacional. Nessa fase, não existem conflitos e, tanto os índios como os portugueses estavam absolutamente maravilhados com tudo o que acontecia aqui.

Com o passar do tempo, o caráter festivo da efeméride escolar  vai se diluindo mas, na minha experiência, não é substituído por versões capazes de produzir uma visão crítica e proativa de cidadania.


Referência.

CARRETERO, Mario. Documentos de Identidade- A construção da memória histórica em um mundo globalizado. Porto Alegre: Artmed, 2010.

DANTAS, Fabiana Santos.  Direito fundamental à memória.  Curitiba: Juruá, 2010.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Roma Eterna

E talvez mais antiga do que se pensava! Confira: http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/roma-pode-ser-um-seculo-mais-antiga-do-que-se-pensava-12191431.

Na próxima segunda-feira, dia 21 de abril, comemora-se a data da fundação mítica de Roma (21 de abril de 753 a.C). Incrível.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Citações sobre a memória - Mario Carretero

"A memória é o treinamento daqueles que querem fazer o próprio futuro". 

Referência


CARRETERO, Mario.  Documentos de Identidade: a construção da memória histórica em um mundo globalizado. São Paulo:  Artmed, 2010, p. 233.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Capas de pele humana

Notícia impressionante: http://www.redetv.uol.com.br/jornalismo/portaljornalismo/Noticia.aspx?118,4,593283,200,Biblioteca-de-Harvard-tem-tres-livros-encadernados-em-pele-humana.

Parece que a prática de encapar livros com pele humana possui até um nome específico - biblioplegia antropodérmica - mas não sei se foi considerada normal ou era moda em alguma época. Há relatos da utilização de pele humana para fins utilitários - pergaminhos - nos campos de concentração nazistas, e também a referência (não confirmada) do seu uso em abajures.

Do meu ponto de vista, a utilização de restos mortais humanos desta maneira é imoral porque não se pode reduzi-los à condição de produtos.  Sempre que consideraram seres humanos como objetos, portanto desumanizados, esse caminho levou ao desastre do tráfico, da escravidão e do descarte.

domingo, 6 de abril de 2014

Direito à memória coletiva: o Relatório Figueiredo

Qualquer ditadura, por definição, prejudica o exercício de direitos fundamentais.  Mas no Brasil, as diversas ditaduras permitiram a sobrevivência de práticas violadoras durante séculos até os nossos dias, incorporando tais violações ao nosso modo de viver como se fossem normais.

No post  http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2013/06/direito-memoria-coletiva-povos.html   mostramos que os indígenas brasileiros foram uma parcela da população especialmente massacrada, sobre quem ninguém parecia saber ou se importar muito.

Felizmente para nós, e infelizmente para nós, o falecido procurador Jader de Figueiredo Correia conseguiu produzir uma extensa denúncia, um relatório de 5 a 7 mil páginas, demonstrando como o Serviço de Proteção ao Índio, órgão público criado especificamente para implementar uma política pública de proteção, na verdade matou, torturou, prostituiu, escravizou comunidades indígenas em nosso nome. 

Esse relatório foi encaminhado às autoridades competentes à época, que demitiram os servidores públicos (ir) responsáveis, que depois foram reintegrados.

Depois, o relatório permaneceu perdido durante décadas, até que foi encontrado  e agora foi disponibilizado para estudo: https://archive.org/details/RelatorioFigueiredo.

Para ler, e depois fazer alguma coisa.  O próximo dia 19 de abril - Dia do Índio - seria uma boa oportunidade para refletir sobre o assunto.