O brasileiro não tem memória.

Neste blog desmascaramos esta mentira.









terça-feira, 24 de março de 2026

Perna cabeluda

É muito estranho ver a nossa assombração local ser compartilhada no mundo todo e, mais estranho ainda, vê-la sendo tratada como uma metáfora.

Sim, a perna cabeluda foi um artifício para driblar a censura, permitindo que os jornalistas reportassem a violência cotidiana como se fosse um conto de terror, o que na verdade era.

Mas é preciso esclarecer que nós daqui realmente tememos as duas pernas cabeludas - tanto o disfarce da violência real, como a impressão que assombra a nossa memória coletiva.

Eu aprendi o medo que me foi transmitido, embora racionalmente sempre tenha apontado que, dentre todas as assombrações que habitam a minha cidade, a perna cabeluda certamente não era a mais assustadora.  Posso pensar rapidamente em umas dez que a ultrapassam na lista.

Minha pouca reverência baseia-se no fato de que eu sempre achei que era muito fácil esquivar da perna cabeluda, mas essa minha confiança ingênua não considerava que a vítima pode ficar paralisada com o choque ou pelos poderes da assombração, e daí não conseguir se defender dos chutes.

Só comecei a ter medo real da perna cabeluda quando entendi o que significava sofrer violência e ser obrigado a calar-se, que é o que acontece quando a democracia vai embora e nos deixa indefesos.

Vivemos em um mundo em que as assombrações estão vivas na memória coletiva e sempre rondando. Algumas nós entendemos e deixamos habitar a imaterialidade que enriquece a vida e dá o pretexto para conversar e contar estórias.

Às outras devemos estar sempre atentos.

domingo, 22 de março de 2026

Cãs

A minha mãe gosta de palavras da Língua Portuguesa, mas às vezes isso é fonte de grande sofrimento quando não as lembra da forma exata.

Essa semana o problema foi canizado.  Ela disse que o meu avô utilizava muito essa palavra, mas ela não encontrou no dicionário de jeito nenhum.

Como sempre, houve uma grande mobilização para identificarmos a palavra, e como sempre a minha irmã disse que não existia.

Depois de muitas perguntas para descobrir o contexto de aplicação, parece que vovô Mario  usava a palavra para se referir a cabelos grisalhos ou brancos.

Partindo daí chegamos à palavra "canície", que se refere ao embranquecimento dos cabelos. Portanto quem tem cabelos brancos está encanecido.

A palavra buscada aparentemente não era canizado, embora exista "caniçado" que refere a colocar caniços.  Entendemos então que se tratava de encanecido, talvez com a particularidade do sotaque da minha região.

Mas de onde vem tudo isso, canície e encanecido?

Meu pai, que até então não havia participado da polêmica desde as horas iniciais da manhã, resolveu o problema ao anoitecer.

Vem de cãs, que era usado para designar cabelos brancos.

E CANTOU UMA MÚSICA que tinha a palavra cãs, da qual eu nunca ouvido falar, mas tem até canção.

Minha irmã disse que a palavra cãs não existia, mas logo  ficou provado que sim.

A memória do meu pai é assombrosa para músicas e filmes brasileiros, e ele consegue localizar as suas referências em canções desde sempre.  Agora, que ele se juntou à Alexa na boemia, a cantoria não tem mais limites na casa dele.

Acho até que ele está com um pouco de ciúmes porque Alexa sabe mais canções, mas eu disse que não se preocupasse porque a inteligência dela é artificial, enquanto que a dele é real, e a sua memória é fabulosa.


domingo, 15 de março de 2026

Oscar 2026 - O Agente Secreto

Eu poderia escrever esse post amanhã, quando já sabido o resultado da premiação, mas resolvi escrever hoje porque não importa quem vencer já estamos comemorando.

Talvez o resto do mundo não saiba, mas nós brasileiros crescemos assistindo à cerimônia do Oscar simplesmente porque passava na televisão.

E assistir à televisão, e qualquer coisa que nela passasse, era o esporte favorito e mais constante dos brasileiros.  Desde que foi inventada a televisão alcançou a façanha de atingir quase a totalidade dos lares brasileiros e isso permitiu a promoção de programas educativos (como o Telecurso), de teledramaturgia e esportes com um alcance enorme, com efeito coagulante do sangue nacional.

Com a cerimônia do Oscar não é diferente. Acostumamos a assistir e, para quem gosta de cinema como eu, havia um ritual a fazer que era assistir aos indicados a melhor filme nos cinemas da minha cidade para poder torcer com autoridade.

No ano passado assistimos a um filme brasileiro ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro (o maravilhoso Ainda estou aqui), o que foi motivo de grande festa.

Mas esse ano está especial para nós.  

A indicação do filme "O Agente Secreto" nos deu motivo para beber e festejar, continuando o carnaval que não terminou.

Neste exato momento, e independentemente do resultado da premiação, há pessoas comemorando e festejando só porque um filme brasileiro está concorrendo, e lá do lado de fora do cinema São Luiz, que é um dos personagens do filme.

Tem gente apostando também porque isso virou uma mania nacional.

Mas não importa se o filme ganhar ou não ganhar, pois vamos beber e festejar do mesmo jeito.

Se o filme ganhar em alguma das cinco categorias a que foi indicado, provavelmente será feriado aqui porque as pessoas não terão condições de trabalhar.

A cada Oscar conquistado tenho certeza que a progressão da ressaca será geométrica.

Viva o Agente Secreto e à reflexão sobre a memória que a obra de arte proporciona!

Evoé!


sexta-feira, 13 de março de 2026

Ruina como arte

E quando o artista não QUER que a sua obra seja preservada porque os efeitos do tempo a completam?

Não estou falando de pátina, estou falando de deixar a obra receber intempéries e se transformar com o tempo.

A ideia de preservar baseia-se em evitar ou mitigar os efeitos deletérios, humanos ou naturais, mas não quando o artista quer incorporar esses efeitos deletérios na própria obra.

Com o tempo o bem artístico vai gradualmente se transformar e ser destruído, e nós só teremos imagens, desenhos e vídeos para mostrar às futuras gerações.

Ele proibiu restauros.

(Pausa para eu dar chiliques)

E a cada vez que eu retorno para ver a obra ela está pior (para os meus olhos), e seguindo o curso da vida dela, na visão do artista.

É de enlouquecer, mas é a vontade do autor.

Respeito a vontade do autor, droga.

sábado, 7 de março de 2026

Divulgação - Guia para mulheres que viajam sozinhas

 Viajar é preciso e viajar sozinha é muito muito bom também.

Pensando na gente o Governo Federal do Brasil em parceria com a UNESCO lançou o Guia para mulheres que viajam sozinhas em 05/03/2026, confiram a notícia:

https://www.gov.br/turismo/pt-br/assuntos/noticias/ministerio-do-turismo-lanca-guia-inedito-para-mulheres-que-viajam-sozinhas-e-revela-o-perfil-das-viajantes-brasileiras

Vamos ler e aplicar para andar pelo mundo com mais informação e segurança.



terça-feira, 3 de março de 2026

Desvio no tempo

Ontem à noite, quando voltava da aula na Universidade, tive que fazer um desvio porque a estrada estava em obras e algo mágico aconteceu.

Tive que passar por dentro de uma vila, que eu nunca teria visto não fosse o desvio,  e lá estava ele: o modo de viver anacrônico.

Senhoras sentadas na calçada brigando com vizinhas e crianças. Crianças com suas bicicletas, pulando elástico e jogando amarelinha, que aqui chamamos de academia.

Interrompi dois jogos de futebol e uma amarelinha porque as crianças, pasmem, estavam brincando no meio da rua, exatamente como eu fiz em uma vila igual àquela há tantas décadas, quando visitava a casa dos meus avós maternos.

A descortesia de passar de carro no meio de um jogo de amarelinha será oportunamente corrigida.

Mesmo depois que a estrada estiver consertada, e o desvio não for mais uma imposição, vou continuar passando por ali.  Quem sabe o meu carro e eu não nos tornamos familiares, e qualquer dia alguém me chama para comer bolo e tomar guaraná?

Cafezinho eu não posso porque, apesar de gostar muito de tomar café sem açúcar (https://direitoamemoria.blogspot.com/2026/02/dialogo-surreal-18-sobre-o-cafe-e.html), como menina adulta que sou, não tomo mais café à noite.

Mas um bolinho com guaraná eu sempre aceito.  Escuto fofocas mas não retransmito e estou disposta a pular amarelinha, se o meu joelho permitir.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Diálogo surreal (18): sobre o café e outras possibilidades

Eu gosto de guardar os diálogos e situações surreais em que de vez quando sou atirada pelos meus sobrinhos.  Acho que a sua visão sobre feriados, fadas do dente, artefatos mitológicos, padrões sociais, entre outros assuntos, são absolutamente memoráveis e fascinantes.  Para conhecer alguns desses eventos:

https://direitoamemoria.blogspot.com/2018/07/dialogo-surreal-14-sobre-coercitividade.html 

https://direitoamemoria.blogspot.com/2020/08/dialogo-surreal-15-caixa-de-pandora.html

https://direitoamemoria.blogspot.com/2022/04/dialogo-surreal-12-feriado-de.html

https://direitoamemoria.blogspot.com/2018/02/dialogo-surreal-13-sobre-fada-do-dente.html

https://direitoamemoria.blogspot.com/2014/08/dialogo-surreal-6-brincadeira-de-crianca.html

Ontem o mais novo deles, Ramiro, estava conversando comigo e mais um desses momentos mágicos aconteceu:

- Tia Fabiana, você vai tomar café?

- Vou tomar. Eu gosto de tomar café sem açúcar.

- Mas tia Fabiana, meninas podem tomar café?

- Claro que podem, Ramiro.  Meninas podem fazer tudo o que elas quiserem, desde que permitido por leis justas.

(Ele colocou a mão no queixo, pensando, tão lindo que parecia um emoji)

- E meninos, podem tomar café?

(Essa sou eu sentindo a cilada).

- Depende.  Meninos adultos podem, meninos pequenos, como você, não podem.

- Mas meninas pequenas podem?

- Não, meninas pequenas também não podem.  Meninos e meninas podem fazer coisas iguais.  Se a menina pequena não pode tomar café, o menino pequeno não pode to __

(Essa sou eu esperando que ele complete a frase, entendendo na prática o sentido do princípio constitucional da igualdade previsto no artigo 5º, caput e I, da Constituição Federal do Brasil)

Ele ficou me olhando.

- Ramiro,  o que os meninos pequenos não podem tomar?

- Caipirinha

(😂😂😂😂😂)

- Exatamente, Ramiro.