O brasileiro não tem memória.

Neste blog desmascaramos esta mentira.









quinta-feira, 25 de junho de 2026

Yoshi

Quem me conhece sabe que eu sou louca por batata frita.

Embora não seja a comida mais saudável do mundo, ou saudável em qualquer medida, eu adoro.

Tudo isso para explicar que, há quase trinta anos, resolvi conhecer um restaurante novo na minha cidade e do qual todo mundo estava falando.  Comida japonesa deliciosa, atendimento perfeito e feito pelas mãos do proprietário, o sr. Yoshi.

Quando lá cheguei, fui recebida por ele com toda a gentileza.  E a minha intenção era realmente percorrer aquele cardápio inteiro, ingerindo os valores, as experiências e os sabores da cultura japonesa, com muito respeito e admiração.

Para a entrada e, antes dessa imersão maravilhosa, obviamente eu pedi batata frita.

Sr. Yoshi me olhou profundamente e disse: não há batata frita no cardápio.

Eu fiquei incrédula.  Olhei a parte das entradas, não tinha.  Procurei a parte de petiscos, onde geralmente elas também aparecem, e não tinha.

O desespero me fez até procurar depois das sobremesas, que geralmente encerram os cardápios. Não tinha.

Eu olhei com aquele jeito decepcionado e disse é, não tem mesmo.

Não sei se é um traço da cultura japonesa, ou se era só seu Yoshi sendo ele mesmo, mas aquela falta detectada no cardápio pareceu um grande erro imperdoável.

Eu já estava até conformada em pedir outras entradas, mas o assunto da batata frita se tornou um problema na nossa relação.

- Você queria comer batata frita como?, ele me perguntou.

- Entrada, eu respondi.

- Mas tem entradas melhores do que batata frita no cardápio, ele retrucou.

- Tudo bem, eu falei inocentemente.  O senhor pode sugerir alguma?

- Qualquer uma das vinte entradas que consta nesse cardápio é melhor do que batata frita, ele disse.

(Nesse momento eu pensei que o tinha ofendido gravemente, então resolvi pedir a sugestão do chef, que era uma refeição completa escolhida inteiramente por ele).

Depois que eu fiz o pedido, respirei aliviada, achando que tudo ia dar certo.

Bem, quase. 

Veio a entrada decorada com algumas batatas fritas.

Depois, os sushi de batata frita. 

Tinha um temaki também, com umas batatas fritas espetadas.

Nessa altura, cada prato que chegava eu dava uma risada.  Acho que ele se divertiu muito mostrando que pedir batata frita no restaurante dele não era adequado.

Foi um dos jantares mais engraçados da minha vida.  Sim, também teve sobremesa adornada com batata frita.

Terminei o meu jantar e pedi a conta.  Não ia falar com ele porque estava muito ocupado cozinhando.

Quando eu estava indo embora, ele veio à mesa. Agradeci, disse que tudo estava ótimo, e que ia recomendar a batata frita para todo mundo.

Nós rimos e eu voltei muitas vezes ao longo dos anos. E ele sempre colocava uma batata frita no meu sushi ou no meu temaki.

Yoshi faleceu e eu nunca mais fui ao restaurante, até hoje.

Passei na frente, e resolvi entrar.  Pedi um cardápio, que mantém alguns pratos que ele fazia e lá, no finalzinho, tinha batata frita.

Dei um sorriso, e agradeci por lembrar de Yoshi, e daquele jantar tão delicioso e engraçado que ele me proporcionou há quase trinta anos.

Yoshi, hoje eu não pedi batata frita no seu restaurante. 


segunda-feira, 15 de junho de 2026

7 X1

Outra Copa, mesmo time traumatizando nações.

A Alemanha ganhou o jogo contra a seleção de Curaçao, na Copa de 2026, pelo placar infame de 7 X 1.

Nós passamos por isso há doze anos, na Copa de 2014 , e acreditem, não esquecemos (https://direitoamemoria.blogspot.com/2014/07/copa-do-mundo-do-brasil-2014-reflexoes.html).

Curaçao, nós entendemos.




quinta-feira, 28 de maio de 2026

Alfinim

Alfinim, também conhecido como Alfenim, aqui onde habito é um doce de coco, com esse formato quadrado.

Em outros lugares apresenta-se mais cheio de frescuras e delicadezas, como formatos de flores e animais, fazendo jus ao nome porque a palavra alfinim também é um xingamento antigo.

Um xingamento da época em que ser delicado era um defeito.

Olha aí a perdição:

O danado - Foto: Fabiana Dantas

Esse é o doce da minha infância cheia de doces porque no meu lugar do mundo a indústria do açúcar sempre foi a base da economia.  A minha região é famosa pelos doces e por tudo de bom e de ruim que eles proporcionam.

Tentando educar as novas gerações fiz uma sessão de degustação de alfinim com Ben e Ramiro, que é a desculpa perfeita para que eu e minha mãe pudéssemos exagerar sem dar satisfação à consciência pesada.

Eles detestaram.

Aqui há um problema intergeracional claro na transmissão desse patrimônio cultural porque, se  na minha época havia poucas opções e era sempre um grande evento comer alfinim, hoje há uma grande variedade de guloseimas muito coloridas e de sabores inusitados, o que afastou o interesse por esse doce tão leve e mimoso.

Por favor, alfinim não é bala de coco. É mais que isso: é a rota da conquista da Península Ibérica pelos árabes (como o nome revela), seu caminho pelo Atlântico até chegar ao Brasil, feito por mãos femininas e que ajudou a sustentar e alforriar muitas mulheres.

Ouviram, Ben e Miro? Não é um doce branco e sem graça, é doce história.  É a infância de vovó Iracema e de Tia Fabiana, evocada em torrões de memórias felizes.

Esse breve vídeo fala do alfinim como a origem das balas de coco, que eu também adoro:

https://globoplay.globo.com/v/13912650/




sexta-feira, 15 de maio de 2026

A beleza de Anitta

Que beleza de álbum é o Equilibrium (2026) de Anitta.

Passei a semana escutando as músicas e fiquei encantada com a linguagem pop vinculada à religiosidade ancestral do Candomblé.

Anitta conseguiu trazer referências e informações sobre a religião dela de uma forma tão leve, para mim respeitosa e bela, que sem dúvida significa um novo patamar na sua obra e na sua vida.

Além de serem músicas muito legais, é louvor que se pode tocar em qualquer lugar, até mesmo em boates, o que é incrível. Ir para a balada sem perder a noção do sagrado é uma forma de redenção e de proteção espiritual.

Gostei muito de todas as músicas, o que é muito raro em um disco. Ajuda porque agora não tem mais lado A e lado B, sendo que esse último sempre foi o meu preferido.  Sempre gostei das músicas que não eram escolhidas para ser sucesso e por isso vinham no lado A, porque o lado B sempre me pareceu mais arredio e inesperado, com as músicas cuja a beleza passou abaixo do radar das gravadoras.

Do ponto de vista do patrimônio cultural e da memória coletiva o disco Equilibrium representa uma promoção dos bens culturais de matriz afro-brasileira, contribuindo de maneira incrível e muito eficiente para o acesso às fontes da cultura nacional, realizando o disposto no artigo 215 da Constituição Federal, que transcrevo:

Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.

§ 1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.     

 2º A lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais.

 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do poder público que conduzem à:      

I defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro;       

II produção, promoção e difusão de bens culturais;        

III formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões;        

IV democratização do acesso aos bens de cultura;         

V valorização da diversidade étnica e regional

Esse artigo, combinado com o artigo 225 da Magna Carta Brasileira, impõe a todos o dever de colaborar com o Estado para a preservação e promoção do patrimônio cultural, obrigação cívica que Anitta cumpriu lindamente.

O acesso às fontes da cultura nacional exige que seja ofertada à população informação de qualidade sobre os bens culturais.  Tenha absoluta certeza de que os fãs de Anitta e as pessoas que ouvem as músicas e vêem os vídeos (que são um capitulo à parte) vão ficar interessadas e motivadas a pesquisar mais sobre o Candomblé e os orixás, buscando acessar as fontes da cultura nacional.

E também vão buscar entender as referências e remissões que são feitas a outras músicas, por exemplo ao Canto de Ossanha, de Baden Powell e Vinicius de Moraes.

A religação proposta por Anitta é com a fé e com o patrimônio de matriz afrobrasileira, mas também com uma tradição musical dos anos 60/70, com especial menção ao disco Os Afro-sambas (1966), essa beleza de obra de arte.

A função da arte é estimular e fazer pensar, e com certeza Anitta alcançou esse objetivo com a sua expressão artística.

Para ouvir as músicas do disco Equilibrium, basta acessar o canal oficial de Anitta: https://www.youtube.com/channel/UCqjjyPUghDSSKFBABM_CXMw

Para ouvir o disco Os Afro-sambas: https://www.youtube.com/watch?v=E7k5laXSu7I&list=RDE7k5laXSu7I&start_radio=1

terça-feira, 12 de maio de 2026

Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19: Lei nº 15.406, de 11 de maio de 2026

Foi instituído o dia 12 de março como a data comemorativa da lembrança das vítimas de Covid-19 pela Lei nº 15.406, de 11 de maio de 2026:

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2026/lei/l15406.htm

Conforme o texto da lei, a data de 12 de março foi escolhida porque ocorreu "o falecimento da primeira pessoa brasileira em decorrência da Covid-19", adotado como marco para " honrar a memória das vítimas da pandemia do coronavírus SARS-CoV-2".

Lembrando que "comemorar" significa lembrarmos juntos.  Então, no dia 12 de março de cada ano, lembraremos das mais de 700 mil vítimas da pandemia (https://direitoamemoria.blogspot.com/2023/03/700-mil.html),

A função deste blog é lembrar, e fizemos o registro da pandemia por meio de impressões, relatos diários, a divulgação de iniciativas como o memorial virtual para as vítimas da COVID-19 (https://direitoamemoria.blogspot.com/2020/05/memorial-virtual-para-as-vitimas-de.html), além de iniciativas periódicas de discutir o tema para avivar a memória individual.

Se tem lei, tem História.