O brasileiro não tem memória.

Neste blog desmascaramos esta mentira.









quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Eu sou a lenda

Em geral é impossível saber como uma história de assombração começa, não só porque o patrimônio imaterial tem origens imemoriais e autoria não determinada, mas principalmente em um lugar onde há tantas e tão variadas que mais uma assombração não chama a atenção e nem mete medo.

Aqui estão em todos os lugares, escondem-se nas esquinas da História para nos dar sustos assim que viramos, e às vezes até parecem ficção (https://direitoamemoria.blogspot.com/2026/03/perna-cabeluda.html), mas não se enganem, são muito reais.

Tudo isso para dizer, solenemente, que eu sou uma assombranção involuntária. A mulher de branco do Forte Orange sou eu.

😂

Em 2022 participei de um evento no referido Forte, que começava ao raiar do sol com uma meditação. Eu estava toda vestida de branco e cheguei mais cedo do que todo mundo, às 3:30 da manhã.

Como eu gosto de monumentos, e estava sozinha, resolvi passear ao longo das muralhas, conversando com o Forte de vez em quando, pois temos uma história linda e longa juntos.

Enquanto andava de madrugada, acariciando lentamente as paredes e murmurando palavras de carinho e incentivo, percebi que havia duas pessoas em um lugar próximo, mas longe o suficiente para se tornarem um borrão àquela hora.

Quando retornei as pessoas não estavam mais lá, e não pensei mais nisso.

Todos os anos eu volto para o mesmo evento e, no ano seguinte, coloquei o meu uniforme branco e fui para o forte, às 4 h da madrugada.  Ao passar pela recepção do hotel, que fica ao lado do monumento, fui avisada para tomar cuidado pois havia notícias de que uma mulher de branco estava assombrando o lugar.

Nada surpreendente pois foi um lugar onde batalhas ocorreram, e mulheres de branco aparecem em todo lugar por aqui.

Mas dessa vez, quando cheguei e comecei a percorrer o perímetro do forte, vi pessoas correndo desesperadas, e tudo isso antes do sol nascer.

Foi aí que eu percebi que a mulher de branco era eu, e que a lenda (ou o trauma) tinha começado em 2022.

😂

Em 2024 o vulto branco virou certeza.

domingo, 30 de agosto de 2026

Sobre autenticidade (2)

No post anterior (https://direitoamemoria.blogspot.com/2026/08/sobre-autenticidade-1.html) analisamos brevemente a notícia de que um homem falsificou um sítio arqueológico, e explorava a boa fé dos turistas, sendo preso por isso.

Vamos comparar com a seguinte notícia:

https://www.cnnbrasil.com.br/viagemegastronomia/viagem/na-china-cidades-que-recriam-o-passado-viram-febre-nas-redes-sociais/

A China está recriando cidades históricas para proporcionar uma experiência turística.  Além de prédios reconstruídos, também é possível utilizar roupas, acessórios e maquiagem para experimentar o que se considera o passado daquele lugar.

E isso não é considerado estelionato simplesmente porque as pessoas sabem que estão visitando uma reconstituição, um cenário.  Não há, pelo que pude perceber, a intenção de enganar as pessoas dizendo que aquele cenário é autêntico.

Esse tipo de visitação para a maioria dos turistas é entretenimento, como acontece em outros lugares que usam a reconstituição histórica como atrativo.

Cabe a quem visita saber se esse tipo de experiência é realmente atrativa.

Para essa pessoa que vos fala o cenário reconstituído é o que menos importaria.  Se eu fosse visitar algum desses lugares ficaria mais interessada em conhecer o processo que levou à reconstituição.  Por que aquele prédio está assim, de onde vieram as informações para reconstituir, por que esta cidade em particular foi escolhida, o que as pessoas que moram lá acham disso?

Todas perguntas que chateariam qualquer guia, inclusive eu se o fosse.

Observem, reconstituições não são um problema.  Varsóvia foi reconstituída após a Segunda Guerra Mundial e voltou a ser, de alguma forma, a cidade que era.

Varsóvia foi reconstituída para ser a cidade que sempre foi. 

Então a pergunta que fica é: as vilas chinesas estão sendo reconstituídas para abrigar a vida cotidiana ou são só cenários?

É pastiche ou restauração?


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Sobre a autenticidade (1)

A autenticidade é um pressuposto inafastável e lógico para a preservação de um bem cultural.

Por essa razão estou me dedicando a estudar o tema e vou iniciar essa reflexão no blog para ajudar em um artigo que estou escrevendo.

Vamos começar pensando que qualquer coisa pode ser falsificada.

Falsificam-se os objetos mais variados: quadros, remédios, azeite (https://direitoamemoria.blogspot.com/2012/09/azeite-doce.html), e até um sítio supostamente arqueológico:

https://www.cnnbrasil.com.br/ciencia/um-trouxa-nasce-a-cada-minuto-o-homem-que-enganou-turistas-com-um-anfiteatro-grego-falso-na-italia/

Por mais surpreendente que pareça não é rara a falsificação de sítios arqueológicos, e isso já foi até política de Estado.

Até o patrimônio imaterial pode ser falsificado.

Enfim, o tema envolve muitos desdobramentos: a questão do conceito, da reprodutibilidade e contrafação, metodologias de autenticação e tudo o que implica a definição da identidade de um bem cultural.

Apoiar a memória em lembranças falsas, fake news, e outras formas de inautenticidade deforma o patrimônio cultural. 

sábado, 25 de julho de 2026

500.000

Historiando, em 9 março de 2025 publiquei um post comemorativo da marca de 300 mil visualizações neste blog (https://direitoamemoria.blogspot.com/2025/03/300000.html), que iniciou depois que eu concluí o meu doutorado só para continuar pensando no tema que ocupa a minha existência, o direito à memória e o patrimônio cultural que lhe serve de suporte.

Aqui eu faço uma compilação de notícias, materiais e impressões que podem ajudar a expandir a minha compreensão sobre a memória individual e coletiva - suas formas, usos e repercussões - para que o meu olhar continue buscando o tema em todos os lugares.

Já me disseram que o tempo dos blogs passou, e que eu deveria procurar outros formatos.

Errado, ainda estamos aqui.  

A memória é persistência e continuidade. É presente, não passado, embora o que passou seja o seu material, e  vamos continuar por aqui.

Então vou atualizar a comemoração das 300 mil publicações aumentando o numero de canecas, de desejos presos e sonhos frustrados do adorado poema de Carlos Pena Filho, que me remete ao tempo em que eu não podia beber chopp mas comia a coxinha do lendário Bar Savoy, que era absolutamente incomparável.

Agora são 1840 postagens publicadas, e outras que estou rascunhando, só para lembrar, desesquecer, evocar e continuar pensando nesse tema infinito.

Arrumei mais uma longa caminhada para fazer, e agradeço à companhia de todos que caminham comigo lendo e comentando os posts.

Ainda não aprendi a ver e responder os comentários nesses 16 anos, porque Denise diz que o blog é desarrumado.

Mas a memória é assim mesmo: fragmentária, seletiva e desorganizada.  Cabe-nos a missão de tentar, da melhor maneira possível, dar-lhe as formas e a coerência que contribuam para a nossa vida e para a nossa felicidade.

Muito obrigada 500.000 vezes!




domingo, 12 de julho de 2026

Dr. Stuart Angel

Em 7 de julho de 2026 a UFRJ atribuiu postumamente o grau de Bacharel em Economia a Stuart Angel.

Confira a notícia: https://forum.ufrj.br/ufrj-entrega-diploma-postumo-a-stuart-angel-em-cerimonia-historica/

Dr. Stuart Angel é um jovem brasileiro que teve a sua vida interrompida pela violência do Estado em 1971, e nunca conseguiu concluir o seu curso superior.

Negaram-lhe os direitos fundamentais à liberdade, à vida e à educação.

Essa reparação simbólica é um acalento para a família dele, e também para a memória da sua mãe, Sra. Zuzu Angel, que pela incansável luta em favor do filho foi reconhecida como heroína do povo brasileiro pela Lei nº 13.433/2017 (cf. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13433.htm).

O jovem economista, agora bacharel Stuart Angel, é filho de uma talentosa heroína cuja virtude heróica é personificar a força e o destemor das boas mães em favor dos seus rebentos.

Gostaria que a Sra. Zuzu Angel não precisasse ser uma heroína, e que pudesse passar a sua vida em família tranquilamente ao lado dos seus filhos, expressando-se livremente através sua arte e criando beleza. 

Gostaria que não fosse preciso existir uma música como Angélica de Chico Buarque que, apesar de bela, traz a dor imensa de uma mãe que só queria acalentar o seu filho, que mora na escuridão do mar por causa da maldade do regime (https://direitoamemoria.blogspot.com/2017/04/formas-de-lembrar-4-uma-cancao.html).

Mas as ditaduras e a violência fazem isso: mudam o rumo das vidas, destroem e impedem o desenvolvimento feliz das pessoas.

Tenho certeza de que essa família só queria ser feliz e livre, aproveitando a existência juntos, com um amor que é visível mesmo à distância, e que nunca diminuiu.

Para as famílias brasileiras a colação de grau em curso superior é uma celebração muito importante (https://direitoamemoria.blogspot.com/2013/06/cerimonias-de-formatura-reflexao.html), então deixo à família Angel os cumprimentos e os votos de carinho ao novo bacharel e à sua mãe heroína; e à UFRJ o meu agradecimento por essa lembrança celebrativa tão importante.

sábado, 4 de julho de 2026

Vai para o blog!

Essa é a frase que equivale a um tipo de certificação.

Todo muito que vê alguma coisa interessante sobre patrimônio cultural, memória e direito à memória fala "olha Fabiana, para o blog!".

Boa!

Continuem mandando e comentando, sensibilizando o olhar para o patrimônio cultural e para a memória coletiva.  

Essa é a função deste blog: discutir, promover e continuar amando tudo o que diz respeito à memória.

Muito obrigada!

terça-feira, 30 de junho de 2026

Brasil Arquivos

 Publicado o Edital do programa Pró-Memórias, do Instituto Galo da Manhã, que selecionará e financiará projetos de preservação, tratamento técnico, digitalização e difusão de acervos arquivísticos no território nacional, para fortalecer o "ecossistema de memória brasileiro".

Confira a notícia divulgada pelo Arquivo Nacional:

https://www.gov.br/arquivonacional/pt-br/canais_atendimento/imprensa/copy_of_noticias/arquivo-nacional-divulga-edital-201cbrasil-arquivos201d-para-apoio-a-preservacao-de-acervos-documentais

O Edital e o formulário estão neste sítio:

https://pro-memorias.org.br/edital/brasil-arquivos/