Gente...
Por favor, vejam as imagens.
Como? Quem? Por que? De novo?
Só parem.
Gente...
Por favor, vejam as imagens.
Como? Quem? Por que? De novo?
Só parem.
Alfinim, também conhecido como Alfenim, aqui onde habito é um doce de coco, com esse formato quadrado.
Em outros lugares apresenta-se mais cheio de frescuras e delicadezas, como formatos de flores e animais, fazendo jus ao nome porque a palavra alfinim também é um xingamento antigo.
Um xingamento da época em que ser delicado era um defeito.
Olha aí a perdição:
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| O danado - Foto: Fabiana Dantas |
Esse é o doce da minha infância cheia de doces porque no meu lugar do mundo a indústria do açúcar sempre foi a base da economia. A minha região é famosa pelos doces e por tudo de bom e de ruim que eles proporcionam.
Tentando educar as novas gerações fiz uma sessão de degustação de alfinim com Ben e Ramiro, que é a desculpa perfeita para que eu e minha mãe pudéssemos exagerar sem dar satisfação à consciência pesada.
Eles detestaram.
Aqui há um problema intergeracional claro na transmissão desse patrimônio cultural porque, se na minha época havia poucas opções e era sempre um grande evento comer alfinim, hoje há uma grande variedade de guloseimas muito coloridas e de sabores inusitados, o que afastou o interesse por esse doce tão leve e mimoso.
Por favor, alfinim não é bala de coco. É mais que isso: é a rota da conquista da Península Ibérica pelos árabes (como o nome revela), seu caminho pelo Atlântico até chegar ao Brasil, feito por mãos femininas e que ajudou a sustentar e alforriar muitas mulheres.
Ouviram, Ben e Miro? Não é um doce branco e sem graça, é doce história. É a infância de vovó Iracema e de Tia Fabiana, evocada em torrões de memórias felizes.
Esse breve vídeo fala do alfinim como a origem das balas de coco, que eu também adoro:
https://globoplay.globo.com/v/13912650/
Que beleza de álbum é o Equilibrium (2026) de Anitta.
Passei a semana escutando as músicas e fiquei encantada com a linguagem pop vinculada à religiosidade ancestral do Candomblé.
Anitta conseguiu trazer referências e informações sobre a religião dela de uma forma tão leve, para mim respeitosa e bela, que sem dúvida significa um novo patamar na sua obra e na sua vida.
Além de serem músicas muito legais, é louvor que se pode tocar em qualquer lugar, até mesmo em boates, o que é incrível. Ir para a balada sem perder a noção do sagrado é uma forma de redenção e de proteção espiritual.
Gostei muito de todas as músicas, o que é muito raro em um disco. Ajuda porque agora não tem mais lado A e lado B, sendo que esse último sempre foi o meu preferido. Sempre gostei das músicas que não eram escolhidas para ser sucesso e por isso vinham no lado A, porque o lado B sempre me pareceu mais arredio e inesperado, com as músicas cuja a beleza passou abaixo do radar das gravadoras.
Do ponto de vista do patrimônio cultural e da memória coletiva o disco Equilibrium representa uma promoção dos bens culturais de matriz afro-brasileira, contribuindo de maneira incrível e muito eficiente para o acesso às fontes da cultura nacional, realizando o disposto no artigo 215 da Constituição Federal, que transcrevo:
Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.
§ 1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.
2º A lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais.
3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do poder público que conduzem à:
I defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro;
II produção, promoção e difusão de bens culturais;
III formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões;
IV democratização do acesso aos bens de cultura;
V valorização da diversidade étnica e regional
Esse artigo, combinado com o artigo 225 da Magna Carta Brasileira, impõe a todos o dever de colaborar com o Estado para a preservação e promoção do patrimônio cultural, obrigação cívica que Anitta cumpriu lindamente.
O acesso às fontes da cultura nacional exige que seja ofertada à população informação de qualidade sobre os bens culturais. Tenha absoluta certeza de que os fãs de Anitta e as pessoas que ouvem as músicas e vêem os vídeos (que são um capitulo à parte) vão ficar interessadas e motivadas a pesquisar mais sobre o Candomblé e os orixás, buscando acessar as fontes da cultura nacional.
E também vão buscar entender as referências e remissões que são feitas a outras músicas, por exemplo ao Canto de Ossanha, de Baden Powell e Vinicius de Moraes.
A religação proposta por Anitta é com a fé e com o patrimônio de matriz afrobrasileira, mas também com uma tradição musical dos anos 60/70, com especial menção ao disco Os Afro-sambas (1966), essa beleza de obra de arte.
A função da arte é estimular e fazer pensar, e com certeza Anitta alcançou esse objetivo com a sua expressão artística.
Para ouvir as músicas do disco Equilibrium, basta acessar o canal oficial de Anitta: https://www.youtube.com/channel/UCqjjyPUghDSSKFBABM_CXMw
Para ouvir o disco Os Afro-sambas: https://www.youtube.com/watch?v=E7k5laXSu7I&list=RDE7k5laXSu7I&start_radio=1
Foi instituído o dia 12 de março como a data comemorativa da lembrança das vítimas de Covid-19 pela Lei nº 15.406, de 11 de maio de 2026:
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2026/lei/l15406.htm
Conforme o texto da lei, a data de 12 de março foi escolhida porque ocorreu "o falecimento da primeira pessoa brasileira em decorrência da Covid-19", adotado como marco para " honrar a memória das vítimas da pandemia do coronavírus SARS-CoV-2".
Lembrando que "comemorar" significa lembrarmos juntos. Então, no dia 12 de março de cada ano, lembraremos das mais de 700 mil vítimas da pandemia (https://direitoamemoria.blogspot.com/2023/03/700-mil.html),
A função deste blog é lembrar, e fizemos o registro da pandemia por meio de impressões, relatos diários, a divulgação de iniciativas como o memorial virtual para as vítimas da COVID-19 (https://direitoamemoria.blogspot.com/2020/05/memorial-virtual-para-as-vitimas-de.html), além de iniciativas periódicas de discutir o tema para avivar a memória individual.
Se tem lei, tem História.
Nossa preferência de sempre, como destacamos nos posts:
É muito estranho ver a nossa assombração local ser compartilhada no mundo todo e, mais estranho ainda, vê-la sendo tratada como uma metáfora.
Sim, a perna cabeluda foi um artifício para driblar a censura, permitindo que os jornalistas reportassem a violência cotidiana como se fosse um conto de terror, o que na verdade era.
Mas é preciso esclarecer que nós daqui realmente tememos as duas pernas cabeludas - tanto o disfarce da violência real, como a impressão que assombra a nossa memória coletiva.
Eu aprendi o medo que me foi transmitido, embora racionalmente sempre tenha apontado que, dentre todas as assombrações que habitam a minha cidade, a perna cabeluda certamente não era a mais assustadora. Posso pensar rapidamente em umas dez que a ultrapassam na lista.
Minha pouca reverência baseia-se no fato de que eu sempre achei que era muito fácil esquivar da perna cabeluda, mas essa minha confiança ingênua não considerava que a vítima pode ficar paralisada com o choque ou pelos poderes da assombração, e daí não conseguir se defender dos chutes.
Só comecei a ter medo real da perna cabeluda quando entendi o que significava sofrer violência e ser obrigado a calar-se, que é o que acontece quando a democracia vai embora e nos deixa indefesos.
Vivemos em um mundo em que as assombrações estão vivas na memória coletiva e sempre rondando. Algumas nós entendemos e deixamos habitar a imaterialidade que enriquece a vida e dá o pretexto para conversar e contar estórias.
Às outras devemos estar sempre atentos.
A minha mãe gosta de palavras da Língua Portuguesa, mas às vezes isso é fonte de grande sofrimento quando não as lembra da forma exata.
Essa semana o problema foi canizado. Ela disse que o meu avô utilizava muito essa palavra, mas ela não encontrou no dicionário de jeito nenhum.
Como sempre, houve uma grande mobilização para identificarmos a palavra, e como sempre a minha irmã disse que não existia.
Depois de muitas perguntas para descobrir o contexto de aplicação, parece que vovô Mario usava a palavra para se referir a cabelos grisalhos ou brancos.
Partindo daí chegamos à palavra "canície", que se refere ao embranquecimento dos cabelos. Portanto quem tem cabelos brancos está encanecido.
A palavra buscada aparentemente não era canizado, embora exista "caniçado" que refere a colocar caniços. Entendemos então que se tratava de encanecido, talvez com a particularidade do sotaque da minha região.
Mas de onde vem tudo isso, canície e encanecido?
Meu pai, que até então não havia participado da polêmica desde as horas iniciais da manhã, resolveu o problema ao anoitecer.
Vem de cãs, que era usado para designar cabelos brancos.
E CANTOU UMA MÚSICA que tinha a palavra cãs, da qual eu nunca ouvido falar, mas tem até canção.
Minha irmã disse que a palavra cãs não existia, mas logo ficou provado que sim.
A memória do meu pai é assombrosa para músicas e filmes brasileiros, e ele consegue localizar as suas referências em canções desde sempre. Agora, que ele se juntou à Alexa na boemia, a cantoria não tem mais limites na casa dele.
Acho até que ele está com um pouco de ciúmes porque Alexa sabe mais canções, mas eu disse que não se preocupasse porque a inteligência dela é artificial, enquanto que a dele é real, e a sua memória é fabulosa.