O brasileiro não tem memória.

Neste blog desmascaramos esta mentira.









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sábado, 4 de julho de 2026

Vai para o blog!

Essa é a frase que equivale a um tipo de certificação.

Todo muito que vê alguma coisa interessante sobre patrimônio cultural, memória e direito à memória fala "olha Fabiana, para o blog!".

Boa!

Continuem mandando e comentando, sensibilizando o olhar para o patrimônio cultural e para a memória coletiva.  

Essa é a função deste blog: discutir, promover e continuar amando tudo o que diz respeito à memória.

Muito obrigada!

segunda-feira, 29 de junho de 2026

São João e Copa do Mundo juntos?

Nunca mais, isso não está certo.

Não dá para ter dois eventos dessa magnitude na mesma época.  

O calendário tem que considerar que são duas comemorações com finalidades, espíritos, manifestações e vestimentas totalmente diferentes.

A alegria e a histeria assumem formatos diferentes e não dá para juntar duas festas porque, além de ser um desperdício de oportunidades para festejar, ainda tem efeitos nefastos na nossa identidade coletiva.

Percebi um grande esforço das pessoas em tentar dar coerência a estados de espírito tão diferentes, fadado ao fracasso porque não dá para combinar São João e Copa do Mundo.

Esse esforço, ainda que bem intencionado, produziu alguns dos maiores atentados ao patrimônio cultural brasileiro, por exemplo, beber caipirinha com tira-gosto de pamonha.

Esse é, sem dúvida, o fundo do poço comemorativo.

Nem falo das quadrilhas juninas vestidas de verde e amarelo, as cores sagradas da seleção canarinho, que até ficaram bonitas, mas deixaram os belos vestidos de chita colorida fora da festa.

É isso, não dá para combinar.  A experiência não deu certo e da próxima vez deveriam proibir a Copa do Mundo nessa época junina.

Mas o maior problema de calendário mesmo foi que os jogos do Brasil na primeira fase ocorreram em dias de santos:

13 de junho, dia de Santo Antônio; Brasil x Marrocos

24 de junho, dia de São João: Brasil x Escócia

29 de junho, dia de São Pedro: Brasil x Japão

Caso essa "coincidência" seja mantida na próxima Copa do Mundo, para nós isso será prova cabal de que esse padrão propiciatório deverá ser mantido para sempre, sob pena de efeitos catastróficos para os resultados da nossa seleção. 

Tudo isso é demais para a nossa superstição aguentar então FIFA, por favor, vê se não faz mais isso.

Agora temos que verificar qual o santo de cada dia das próximas fases. Para a nossa sorte há muitos, por exemplo, o Brasil jogou dia 19/06/2026 que é o dia dedicado à Santa Juliana Falconieri, São Gervásio e São Protásio, e São Romualdo.

O próximo dia de jogo é 05/07, dia de Santo Antônio Maria Zaccaria.

Agora é descobrir se cada um desses santos tem alguma igreja aqui por perto e qual a oração de sua preferência.



quinta-feira, 28 de maio de 2026

Alfinim

Alfinim, também conhecido como Alfenim, aqui onde habito é um doce de coco, com esse formato quadrado.

Em outros lugares apresenta-se mais cheio de frescuras e delicadezas, como formatos de flores e animais, fazendo jus ao nome porque a palavra alfinim também é um xingamento antigo.

Um xingamento da época em que ser delicado era um defeito.

Olha aí a perdição:

O danado - Foto: Fabiana Dantas

Esse é o doce da minha infância cheia de doces porque no meu lugar do mundo a indústria do açúcar sempre foi a base da economia.  A minha região é famosa pelos doces e por tudo de bom e de ruim que eles proporcionam.

Tentando educar as novas gerações fiz uma sessão de degustação de alfinim com Ben e Ramiro, que é a desculpa perfeita para que eu e minha mãe pudéssemos exagerar sem dar satisfação à consciência pesada.

Eles detestaram.

Aqui há um problema intergeracional claro na transmissão desse patrimônio cultural porque, se  na minha época havia poucas opções e era sempre um grande evento comer alfinim, hoje há uma grande variedade de guloseimas muito coloridas e de sabores inusitados, o que afastou o interesse por esse doce tão leve e mimoso.

Por favor, alfinim não é bala de coco. É mais que isso: é a rota da conquista da Península Ibérica pelos árabes (como o nome revela), seu caminho pelo Atlântico até chegar ao Brasil, feito por mãos femininas e que ajudou a sustentar e alforriar muitas mulheres.

Ouviram, Ben e Miro? Não é um doce branco e sem graça, é doce história.  É a infância de vovó Iracema e de Tia Fabiana, evocada em torrões de memórias felizes.

Esse breve vídeo fala do alfinim como a origem das balas de coco, que eu também adoro:

https://globoplay.globo.com/v/13912650/




sexta-feira, 15 de maio de 2026

A beleza de Anitta

Que beleza de álbum é o Equilibrium (2026) de Anitta.

Passei a semana escutando as músicas e fiquei encantada com a linguagem pop vinculada à religiosidade ancestral do Candomblé.

Anitta conseguiu trazer referências e informações sobre a religião dela de uma forma tão leve, para mim respeitosa e bela, que sem dúvida significa um novo patamar na sua obra e na sua vida.

Além de serem músicas muito legais, é louvor que se pode tocar em qualquer lugar, até mesmo em boates, o que é incrível. Ir para a balada sem perder a noção do sagrado é uma forma de redenção e de proteção espiritual.

Gostei muito de todas as músicas, o que é muito raro em um disco. Ajuda porque agora não tem mais lado A e lado B, sendo que esse último sempre foi o meu preferido.  Sempre gostei das músicas que não eram escolhidas para ser sucesso e por isso vinham no lado A, porque o lado B sempre me pareceu mais arredio e inesperado, com as músicas cuja a beleza passou abaixo do radar das gravadoras.

Do ponto de vista do patrimônio cultural e da memória coletiva o disco Equilibrium representa uma promoção dos bens culturais de matriz afro-brasileira, contribuindo de maneira incrível e muito eficiente para o acesso às fontes da cultura nacional, realizando o disposto no artigo 215 da Constituição Federal, que transcrevo:

Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.

§ 1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.     

 2º A lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais.

 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do poder público que conduzem à:      

I defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro;       

II produção, promoção e difusão de bens culturais;        

III formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões;        

IV democratização do acesso aos bens de cultura;         

V valorização da diversidade étnica e regional

Esse artigo, combinado com o artigo 225 da Magna Carta Brasileira, impõe a todos o dever de colaborar com o Estado para a preservação e promoção do patrimônio cultural, obrigação cívica que Anitta cumpriu lindamente.

O acesso às fontes da cultura nacional exige que seja ofertada à população informação de qualidade sobre os bens culturais.  Tenha absoluta certeza de que os fãs de Anitta e as pessoas que ouvem as músicas e vêem os vídeos (que são um capitulo à parte) vão ficar interessadas e motivadas a pesquisar mais sobre o Candomblé e os orixás, buscando acessar as fontes da cultura nacional.

E também vão buscar entender as referências e remissões que são feitas a outras músicas, por exemplo ao Canto de Ossanha, de Baden Powell e Vinicius de Moraes.

A religação proposta por Anitta é com a fé e com o patrimônio de matriz afrobrasileira, mas também com uma tradição musical dos anos 60/70, com especial menção ao disco Os Afro-sambas (1966), essa beleza de obra de arte.

A função da arte é estimular e fazer pensar, e com certeza Anitta alcançou esse objetivo com a sua expressão artística.

Para ouvir as músicas do disco Equilibrium, basta acessar o canal oficial de Anitta: https://www.youtube.com/channel/UCqjjyPUghDSSKFBABM_CXMw

Para ouvir o disco Os Afro-sambas: https://www.youtube.com/watch?v=E7k5laXSu7I&list=RDE7k5laXSu7I&start_radio=1

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Lembrancinha

Dezembro e janeiro de cada ano compõem o ciclo natalino porque, entre nós, o Natal não é apenas uma data, mas um período de festejos.

É um tempo de confraternização, agradecimentos e dádivas, onde as pessoas manifestam bons sentimentos que deveriam estar presentes em todos os dias e horas de nossas vidas.

Nesse período mágico há o costume de ofertar presentes, que às vezes chamamos de lembrancinhas (cf.https://direitoamemoria.blogspot.com/2012/12/feliz-natal-2013.html).

Eu adoro a palavra e a ideia da lembrancinha porque, em primeiro lugar, demonstra que alguém pensou no presenteado com carinho e, segundo, que o presentinho é algo cujo valor é mais do que material.

A lembrancinha vale mais pelo significado do que pela matéria, e isso também é aplicável aos bens materiais que suportam o direito à memória coletiva e individual.

Feliz Natal!



sábado, 29 de novembro de 2025

Nomes do Brasil - IBGE

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é uma autarquia federal, portanto integrante da Administração Pública, cujos inestimáveis serviços permitem que nós brasileiros conheçamos a nós mesmos, ao nosso território, e suas preciosas informações são fundamentais para o planejamento das políticas públicas.

Para conhecer o IBGE:https://www.ibge.gov.br/acesso-informacao/institucional/o-ibge.html

Recentemente, o IBGE publicou a lista dos nomes próprios e sobrenomes utilizados no Brasil: https://censo2022.ibge.gov.br/nomes

Nas últimas semanas essa questão dos nomes vem sido muito debatida e a plataforma permite pesquisar o seu próprio.  Descobri que no Brasil existem 274.147 pessoas que têm a sorte de portar esse belo nome "Fabiana", comunidade da qual eu orgulhosamente faço parte, cuja média de idade é de 38 anos.

O acentuado declínio na escolha desse nome próprio simples, e lindo, mostra que ele não está na moda.

Bem, faço parte da comunidade pelos motivos errados, mas no fim da estória muito doida que os meus pais contam, eu ganhei o nome Fabiana.

Lá você também pode descobrir qual o lugar no mapa com maior ocorrência de "Fabianas", que é em Minas Gerais. Não é novidade alguma já que nós, Fabianas, somos muito espertas e sabemos exatamente o lugar que tem os melhores quitutes, acompanhados de um cafezim de primeira qualidade.

Eu preciso explicar que, do ponto de vista da lei de registros públicos brasileira, a escolha do nome próprio (prenome ou primeiro nome) é livre, desde que não represente um atentado à dignidade da pessoinha. Alguns países possuem leis indicando (ou proibindo) nomes que podem ser atribuídos aos recém-cidadãos, o que limita obviamente as escolhas e as expectativas dos que nomeiam.

O primeiro nome de uma pessoa aqui no Brasil pode ser simples, composto, e ao alvedrio dos pais ou responsáveis. 

Sim, eu escrevi alvedrio, que é uma palavra muito antiga, que ninguém mais usa porque, além de promover o resgate, também poderia ser o nome de alguém.

Não é, eu busquei na plataforma.  Mas se você procurar encontrará nomes interessantes e peculiares, que ajudam a compor esse mosaico supercriativo dos nomes brasileiros, inclusive contextualizando o período em que determinado nome se tornou mais comum.

Além dos nomes mais corriqueiros identificados pelo IBGE, tais como Maria, Ana, José e Antônio, existem muitos outros memoráveis https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/11/05/deus-remedio-finado-e-carnaval-veja-nomes-e-sobrenomes-inusitados-registrados-em-sp-segundo-ibge.ghtml.


domingo, 7 de setembro de 2025

Capitulo publicado (2025) - Fabiana Dantas

Em 03/09/2025 foi publicado o livro "Patrimônio Cultural e Meio Ambiente - Direito, Memória e Sustentabilidade" pela Editora Juspodivm, e foi uma oportunidade de encontrar, pensar e aprender junto com os amigos.  O meu capítulo se chama "Uma trilha ecológica para o patrimônio cultural", e tem como objetivo contribuir para um conceito legal-operacional de patrimônio cultural ecológico.





Estudemos.


sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Patxohã - Língua de Guerreiros (2016)

A luta das comunidades pela sua memória coletiva e individual é uma das facetas mais importantes do direito à memória.

Lutar para ser quem é, e conseguir passar essa identidade adiante, é para alguns grupos a forma mais urgente de sobrevivência.

Os povos originários do Brasil possuem uma cultura diversa, formas de fazer, sentir e modos de viver que são a base da sua autonomia e da sua identidade.

Proteger a sua identidade, a sua vida e o seu modo de vida é uma tarefa incessante, e até incompreensível para quem não passou por essa experiência de trauma geracional.

O documentário Patxohã Língua de Guerreiros (2016) mostra como a memória é uma conquista, e que o direito que lhe corresponde só pode ser efetivo se defendido permanentemente.

Para assistir:

https://www.youtube.com/watch?v=PuoHqbxugqY

terça-feira, 24 de junho de 2025

Viva São João!

Aqui na minha região celebramos o São João com comidas típicas feitas com milho, danças,  músicas e ainda muitos fogos de artifício.

Nessa época o meu lugar fica encantado e cheio de fumaça das fogueiras, e de lembranças das festas na casa da minha avó.

Eu, que nunca fui de duvidar de lendas, acabei sendo perseguida por um buscapé, e tive que pular um muro para não ser alcançada.

Também pulei fogueiras e quase andei sobre as brasas mas o bom-senso, ou mais provavelmente a minha mãe, me impediu no último momento.

As festas juninas são lembranças coloridas para mim, e que todos os anos tenho o prazer de revisitar. 

Bom São João para todos!


segunda-feira, 28 de abril de 2025

Guiana Brasileira

Não tenho o hábito de participar ou contribuir com tretas, mas a questão da Guiana Brasileira chamou a minha atenção nessa semana.

A questão decolonial ou colonial reversa envolvida (ou quase) soma-se a um histórico de brincadeiras sobre a relação Brasil/Portugal que não nos passou despercebido.

A preservação do patrimônio imaterial português é fonte de permanente preocupação, principalmente  as questões da Língua Portuguesa, do sotaque e das formas de expressão.  Essa treta iniciou porque, em um cumprimento pela contratação de uma jogadora portuguesa, foram usadas expressões "brasileiras", o que foi motivo de reação.

A reação deve ser compreendida no contexto da preocupação com a preservação e reafirmação da identidade cultural portuguesa, fortemente enraizada na língua e nas formas de expressão. 

Já a reação brasileira, em tom jocoso obviamente, transforma Portugal em uma colônia brasileira digital, renomeando topônimos (que também são um patrimônio cultural português), a ponto de mudar o nome da Nação para Pernambuco em Pé (devido à extensão e formato do território), Faixa de Gajos ou Porto de Gajinhas.

Brincadeiras à parte não há dúvidas de que o Brasil exerce uma forte influência cultural, não só em Portugal mas nos demais países lusófonos, e que há uma certa ansiedade quanto a deixar de ser quem é.

Essa ansiedade pode ser gerenciada quando são identificados aqueles elementos culturais essenciais à identidade, que não se referem apenas ao que se convenciona apontar como patrimônio cultural, mas que estão difusamente enraizados nos elementos formadores do Estado, como o povo, o território, o governo (forma de Estado e de Governo, sistema, regime político), e na forma como esses elementos são promovidos ou obliterados.

Fiz uma  discussão quanto às formas de preservação desses elementos culturais do Estado (ou da nação) no livro Nação Enraizada - Estado, identidade e preservação, que publiquei em 2024.

Não vou fazer discussão teórica sobre memes, mas posso considerar o que nessas brincadeiras gerou reação e incômodo para entender quais são os elementos culturais mais caros aos portugueses. Eu ri muito, mas se não for engraçado, desde já peço desculpas.

Agora, por causa da brincadeira, a Guiana Brasileira já possui municípios, hino, bandeira (ainda em elaboração), e outros elementos que podem contribuir para que se torne um lugar lendário, como aqueles apontados por Umberto Eco.

O novo Estado ultramarino brasileiro é sem dúvida muito interessante.


quarta-feira, 5 de março de 2025

Lições do carnaval

Quarta-feira de cinzas é um momento oportuno para reflexão.  Naquele momento entre um remédio para dor de cabeça e um antiácido há todo um mosaico de pensamentos éticos motivados pela ressaca.

É momento de pensar nas lições que o carnaval nos proporciona:

a) Uma lição de criatividade:  cada um sonha a sua fantasia e brinca como quer;

b) Uma lição de diversidade: cada expressão é diferente da outra, e igualmente valiosa, se exercida dentro dos limites da lei, do bom-senso e do bom-gosto;

c) uma lição de liberdade: ser criativo e diverso expande a alma.  Além disso, no carnaval as pessoas não julgam tanto e não acham nada estranho você ser quem é. 

Essa lição deveria estar presente no nosso cotidiano.

d) Uma lição de amor pela cultura, pelas pessoas e pelos lugares físicos e simbólicos.

e) Uma lição de fraternidade, pois aprendemos a ser felizes juntos.

f) Uma lição de paciência, pois só faltam 344 dias para o próximo carnaval. 

Não aprendemos lições de humildade e nem de modéstia, porque nada disso nos convém e somos o máximo.

Viva o carnaval!

domingo, 9 de fevereiro de 2025

Feliz 9 de frevereiro

9 de fevereiro é o marco mítico celebrativo do nascimento do frevo, bem imaterial registrado do Brasil e inscrito na Lista do Patrimônio Imaterial da Humanidade da UNESCO.  Para conhecer um pouco confira o  vídeo institucional da candidatura: https://www.youtube.com/watch?v=dOjtXpl77_E

Mas para conhecer de verdade essa forma de expressão  tão linda e complexa, que nos envolve em uma música distinta e uma dança (passo) magnífica, com vestimentas e adereços tão peculiares (https://direitoamemoria.blogspot.com/2019/03/sombrinha.html), você tem que aprender a dançar, e dançar no meio do povo durante um carnaval em Pernambuco, Brasil.

É uma experiência que marca com fogo alto a memória, que faz parte da  minha vida e da minha identidade, como expliquei no post: http://direitoamemoria.blogspot.com/2011/07/o-primeiro-frevo-gente-nunca-esquece.html

Por isso, não chamamos a data de hoje de 9 de fevereiro.

É 9 DE FREVEREIRO!

Viva o Frevo!


quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Água de janeiro

As certezas e os mistérios da cultura brasileira apontam que dar água da primeira chuva de janeiro ajuda os bebezinhos a falar.

Tal prática, de reconhecida e indiscutida eficácia, não é isenta de efeitos colaterais.  Além de destravar a fala das criancinhas, pode exacerbar essa habilidade naquelas que, embora não precisassem, inadvertidamente tomaram e ficam a falar descontroladamente.

Os tagarelas certamente tomaram água de janeiro sem precisar, e não se conformam em apenas falar, mas agora expressam-se nas redes sociais por palavras e figurinhas, ainda que não solicitadas.

Água de janeiro é um perigo e deve ser bebida com moderação.


quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Queijo de Minas - novo patrimônio imaterial da Humanidade

O patrimônio cultural imaterial abrange os modos de fazer, viver e sentir que ilustram a experiência humana.  São manifestações da maravilhosa capacidade de adaptação e do aperfeiçoamento das conquistas civilizatórias da Humanidade.

E, às vezes, também pode ser uma delícia.  Nessa semana a UNESCO reconheceu o modo de fazer queijo mineiro como patrimônio imaterial:

https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2024/12/04/modo-de-fazer-queijo-minas-artesanal-se-torna-patrimonio-cultural-imaterial-da-humanidade.ghtml

Minas Gerais é um estado-membro da República Federativa do Brasil e repositório das nossas fantasias gastronômicas porque tudo lá é gostoso.  A famosa hospitalidade mineira teve que desenvolver formas de agradar, e a comida e o café ancoram toda essa relação.

Em Minas você será convidado a tomar um café e a comer qualquer coisa deliciosa, enquanto trava relações com outros seres humanos, porque conversar também é um patrimônio imaterial mineiro.

O Brasil já contribuiu com vários bens imateriais para a elevação do espírito coletivo, e essa nova contribuição certamente acrescentará mais um pedaço de informação para compor esse mosaico maravilhoso da nossa existência.

E se acrescentar goiabada, tudo ficará perfeito.


domingo, 24 de novembro de 2024

Divulgação - Return to Zanskar (documentário)

Assisti ao documentário da BBC, que fala sobre pessoas e tradições, e como uma nova estrada pode mudar mundos, nem sempre para melhor:




A sensação de perda que as mudanças às vezes carregam traz o senso de urgência em preservar. 

E o que se perde nesse caso? Um modo de vida tradicional, repleto de uma felicidade que o dinheiro não pode comprar.

O que se deve preservar?  O patrimônio imaterial de um modo de vida que foca na sensação de comunidade, na busca pelo sagrado e de uma felicidade além do material.

Esses são valores humanos cada vez mais difíceis de encontrar, e há que andar, e percorrer caminhos para vivê-los.


terça-feira, 2 de julho de 2024

Artístico

 O "artístico" é uma categoria ampla que permite criar um repertório de manifestações culturais que moldam a nossa identidade, quando se transformam em bens acautelados pelo Estado e/ou são difundidas pela sociedade através das gerações.

A categoria artístico abrange as artes tradicionais -Música, Teatro, Arquitetura, Pintura, Escultura, Literatura/Poesia - e outras que, para surpreender as Musas, foram criadas pela evolução da sociedade, como o Cinema e a Fotografia.

Para mim, amante das musas antigas, é difícil imaginar outros tipos de arte além dessas novidades, mas tenho certeza que a Humanidade, em sua infinita capacidade, irá me surpreender.

Qualquer que seja o meio de manifestação, para mim a arte sempre teve a função de acordar e nos fazer ver o mundo de uma maneira diferente (cf. https://direitoamemoria.blogspot.com/2020/04/obras-de-adriana-varejao.html), e não mais voltar a ser como antes.

Eu trabalho protegendo o patrimônio cultural brasileiro, e a ele dedico minhas horas de estudo, lazer e caminhadas, e uma parte material importante dele são os edifícios e monumentos.  Eu contemplo, teorizo, sonho e imagino quem, como, quando, por que, por que aqui, para que, mas depois que eu ouvi o poema sonoro Construção, de Chico Buarque de Holanda, passei a pensar muito mais no quem.

Escute a música, entenda a letra, imagine e chore. Veja um trabalhador carregando o peso da sua existência, vivendo e morrendo como se fosse um utensílio.

Quem fez?  Quem colocou pedra sobre pedra? As pessoas que trabalharam naquele monumento, os executores, criaram a glória alheia e o seu nome se dissolveu no tempo.

Por causa dessa música/poema eu também dou muita importância ao uso de equipamentos individuais de proteção. O meu olho já procura capacetes, cordas, botas e amarrações porque acidentes acontecem, mas não deviam.

Eu vejo os edifícios que ajudo a proteger como organismos vivos que sangram quando são danificados, por causa de Adriana Varejão, e que são o produto do trabalho de pessoas anônimas que ali deixaram sua energia, suas dores, anseios, esperanças e às vezes a sua vida.

A arte expande a nossa compreensão e contribui para a diversidade que nos dá amplitude de alternativas. Pensar diferente, fazer diferente é fundamental também para nós, que não somos artistas, mas sentimos e entendemos a humanidade através das manifestações culturais.

A arte precisa de liberdade para mudar percepções, para incomodar, maravilhar, fazer sonhar, questionar, para nos ajudar a ser mais.

sábado, 29 de junho de 2024

29 de Junho - Dia de São Pedro

 Dia de São Pedro e de comer gnocchi, colocando uma moeda embaixo do prato.


segunda-feira, 24 de junho de 2024

Viva São João!

 A minha região fica em festa para homenagear São João no dia 24 de Junho.

É tempo das comidas de milho, das músicas e vestimentas típicas, e dessa celebração que recarrega a nossa felicidade até a próxima festança.

Embora seja uma festa de colheita, nós que vivemos nos centros urbanos também nos beneficiamos dessa lindeza.

Nesse ano teve fartura, choveu no dia certo (https://direitoamemoria.blogspot.com/2023/03/chuva-de-sao-jose.html) e o ar está cheio da fumaça das fogueiras, que não deveriam mais existir, e de fogos de artifício.

Minha cidade está defumada, barulhenta, colorida e junina.


sexta-feira, 3 de maio de 2024

Férias 2024: Memórias parte 1 - Altitude e atitude

 A região de Cusco é inacreditável, mas mais inacreditável é como as pessoas vivem e produzem cultura naquele ambiente tão difícil.

Imagine a minha surpresa, de bichinho criado à beira-mar, ao perceber que as pessoas não consideram as montanhas como obstáculos. Elas são parte indispensável do modo de viver e sentir, que é modulado pela altitude.

Vejam, é diferente viver e produzir a mil, dois, três, quatro ou cinco mil metros de altitude.  Tudo muda: o tipo de cultivo, a forma, o acesso a água, a gastronomia, a atitude das pessoas diante dos desafios trazidos pelas condições geográficas e climáticas.

Os habitantes da região de Cusco, inseridos na cultura andina mais que na "peruana", têm uma forma de viver que molda a sua identidade cultural.  Nós (e já me incluí) andinos temos uma forma específica de interagir com e integrar a paisagem.

Andar naquelas montanhas é desafiador, especialmente para quem vive na altitude zero como eu, mas não é só a altitude que tira o fôlego.  O vislumbre de como as pessoas se relacionam com paisagem ali é emocionante, e podemos aprender lições de vida sobre resiliência, sobre distinguir o que é realmente importante e necessário, sobre como a beleza é simples, e como isso tudo ajuda a moldar uma atitude correta diante da vida.

Dizer que as pessoas são "espiritualizadas" não é suficiente para explicar essa atitude respeitosa e grata diante da vida.

Essa  minha sensação pode ser causada pela energia mística de Cusco, ou pelas muitas doses alcoólicas que lá tomei enquanto refletia sobre a beleza, a graça, o espírito e a constância, representada pelas montanhas que nos cercam. A cidade é o umbigo do Império Inca, e sabemos que umbigos (ônfalos) são simbolicamente a representação do centro de um universo, de onde são geradas todas as coisas.

Os andinos são atentos à altitude, informam-na a todo momento. Eles sabem a quantos metros tudo está, e essa particularidade faz mais sentido quando visitamos um lugar como Moray, que representa o esforço de aclimatação de espécies para a produção em diferentes altitudes.

A atitude aqui é olhar uma montanha gigantesca e nela ver uma oportunidade de produzir e viver. Adaptar-se, prosperar, e aos poucos transformar esse esforço intergeracional em um modo de vida belo, complexo, sofisticado e capaz de encontrar a harmonia entre os complementos (feminino, masculino, embaixo, em cima), espelhando a existência.

terça-feira, 5 de março de 2024

Bens culturais citados no novo livro de Fabiana: Nação Enraizada

Quando comecei a escrever esse livro, em 2002, a minha ideia era visitar e falar sobre bens culturais de vários lugares. O risco de falar sobre bens alheios é evidente, não só pela compreensão diferente, e quase sempre insuficiente, mas o desafio é exatamente esse: olhar o que não é familiar.

Demorei muito para entender o que eu queria falar, e como.  Quando consegui formar a minha idéia, me senti pronta para visitar e revisitar alguns lugares, pois estar na presença do monumento ajuda a entender a escala, o efeito que causa nas pessoas, na cidade, na paisagem. E aí aconteceu a pandemia.

O projeto de conhecer e voltar a ver foi irremediavelmente prejudicado.  Então resolvi visitar virtualmente, seja pela internet seja através das minhas lembranças, aqueles bens culturais que utilizei como exemplos, e eis a minha lista:

a Niederwalddenkmal, como ilustração da personificação da nação, no caso, como Germania.  https://www.niederwalddenkmal.de/

b. Statue of Unity, como ilustração da unidade da Nação, na pessoa de Sardar Patel.  https://statueofunity.in/

c. Estátua Mãe-Pátria, em Volgogrado.

d. Arca da Aliança, Etiópia

e. Copia da Esfinge, localizada em Hebei, China.

f. Externsteine https://www.externsteine-info.de/

g. Estátua equestre de Gengis Khan (Mongólia)

h. Túmulo de Suleiman Chah

i. O mural da batalha de Kadesh

j. Stone of Scone

l. Tesouros sagrados do Japão

m. A coroação de Napoleão, quadro de Jacques-Louis David

n. Via dell"Impero, Roma

o. Estátua do Duke of Wellington, Glasgow.

p Estatua equestre de Cosimo I, Firenze.


Citei vários bens materiais brasileiros, como o Marco de Touros (RN) e também bens imateriais:

q. Spozalizio del mare, Venezia

r. Maracatu e carnaval

s. Os fascinantes feriados japoneses

t. Lendas e hinos nacionais

u. lutas, danças, poemas

v. Vários tempos, vários lugares. Exemplos da Roma Antiga e como ela nos afeta ainda hoje (não, não estou falando sobre a trend do Império Romano. cf. https://www.terra.com.br/byte/entenda-a-trend-do-imperio-romano-que-se-espalhou-pelas-redes-sociais,82f5e20094de56a2d89a28eeecc0508eeehgyej9.html)

x A memória de pessoas simples, de personagens históricos, de heróis

z Sonhos, projetos, lembranças e esquecimentos.


E como tudo isso se junta para dar corpo ao Estado Nacional e garantir a sua estabilidade.