sábado, 31 de março de 2012

Vladimir Herzog: OEA notifica o Estado Brasileiro

Conforme notícia: http://oglobo.globo.com/pais/oea-notifica-brasil-sobre-morte-de-vladimir-herzog-na-ditadura-4444031

Para saber quem foi Vladmir Herzog: http://www.vladimirherzog.org/vlado/index/biografia.

A morte de Vladmir Herzog é um dos casos em que, comprovadamente, a causa mortis (suicídio) nas depedências de repartições públicas foi considerada forjada.

sexta-feira, 30 de março de 2012

RESGATANDO INSTITUIÇÕES ANTIGAS: VIRGENS VESTAIS

As virgens vestais eram sacerdotisas romanas que cultuavam a deusa Vesta, representada por um fogo perpétuo e simbólico, cuja função era garantir que ele nunca fosse apagado. Era importante garantir que a "chama continuasse acesa" porque simbolicamente representava a continuidade da própria Roma eterna.

As virgens vestais prestavam serviço durante trinta anos como servidoras públicas, e após esse período eram livres para se casar, se quisessem.

A instituição das vestais é muito interessante pois associa a moralidade e a estabilidade públicas à continência (sexual, dos desejos). As vestais tinham que manter o fogo público enquanto apagavam o seu próprio fogo, não é interessante?

Acredito que essa instituição seria muito útil no Brasil de hoje, e poderia ser reabilitada e reciclada para o nosso ganho, se:

a) Pelo princípio da igualdade, fossem criados cargos femininos e masculinos para virgens vestais, acessíveis a brasileiros, na forma da Lei 8112/90 e artigo 37, caput, da Constituição Federal;

b) A existência de pessoas comprovadamente virgens facilitaria muito as argumentações quanto ao princípio da moralidade pública porque agora nós poderíamos localizá-lo nos genitais dos virgens vestais;

c) Poderia ser lançado um álbum com as fotos dos virgens vestais, e poderíamos levar o seu retrato na carteira. Assim, quando quiséssemos dar exemplos, era só sacar a foto e mostrar.

Finalmente, a existência dessas pessoas seria utilíssima. Poderíamos usá-las como termômetros da moralidade pública: o nível de enrubescimento causado em um vestal poderia servir de parâmetro nas condenações por improbidade.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Millôr Fernandes em cinco frases para lembrar

"Cada ideologia tem a inquisição que merece".

"Certas coisas só são amargas se a gente as engole."

"Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim".

"Há duas coisas que ninguém perdoa: nossas vitórias e nossos fracassos".

"A diferença fundamental entre Direita e Esquerda é que a Direita acredita cegamente em tudo que lhe ensinaram, e a Esquerda acredita cegamente em tudo que ensina."

____________

Millôr Fernandes, humorista brasileiro e um homem sábio, faleceu no dia 27 de março de 2012, aos 88 anos.

segunda-feira, 26 de março de 2012

NOTA DE DESAGRAVO A FULANO

"FULANO", palavra de origem árabe utilizada para designar pessoa que não queremos identificar ou cuja identidade ignoramos. (Cf. FRANCA, Rubem. Arabismos, 19994, p. 97; BUARQUE DE HOLANDA, Aurélio. Dicionário da Língua Portuguesa, 1999, p. 949).

Esse pobre ente vem sendo reiteramente esculhambado no nosso Blog, servindo como modelo/ator/sujeito/manequim de diversos xingamentos antigos:

Fulano é um frascário (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2011/08/resgatando-xingamentos-antigos-1.html)

Fulano é um parlapatão (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2011/09/resgatando-xingamentos-antigos-2.html), nesse caso veio disfarçado de recruta 06.

Fulano é um mequetrefe (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2011/09/resgatando-xingamentos-antigos.html)

Fulano é estulto (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2011/10/resgatando-xingamentos-antigos-4.html)

Não disse o nome de fulano, mas estava pensando nele quando escrevi o post: "Fulano, o sevandija emérito da empresa, babou o ovo do chefe até ficar molhado" (cfhttp://direitoamemoria.blogspot.com.br/2011/09/resgatando-xingamentos-antigossevandija.html)

Fulano, aquele crápula (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2011/10/resgatando-xingamentos-antigos-6.html)

Fulano é temulento e vive em um lugar temulento (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2011/11/resgatando-xingamentos-antigos-7.html)

Fulano é tão sécio, que mais parece um alfenim (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2011/11/resgatando-xingamentos-antigos-8-secio.html), exemplo de modo de xingar avançado, combinando xingamentos antigos.

De vez em quando Fulano é estúrdio (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2011/12/resgatando-xingamentos-antigos-9.html)

Frequentemente Fulano é beócio (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2012/01/resgatando-xingamentos-antigos-10.html)

Notadamente Fulano é arrabaldino (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2012/02/resgatando-xingamentos-antigos-11.html)

Fulano está javevó (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2012/02/resgatando-xingamentos-antigos-12.html)

Fulano é um ratoneiro miserável (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2012/03/resgatando-xingamentos-antigos12.html)

Apesar de tudo isso, nós gostamos muito de Fulano e propomos a criação de um marco memorial em sua homenagem, onde as pessoas possam de vez em quando depositar flores, cuspi-lo ou jogar fezes, dependendo do que ele merecer.

domingo, 25 de março de 2012

Citações sobre a memória - Baltasar Gracián

"Saber esquecer é mais um dom que arte.

Aquilo que mais deveríamos esquecer é o que lembramos com mais facilidade.
A memória não é apenas traiçoeira e falha não socorrendo quando necessária,
também é tola, acudindo quando não convém. É prolixa quando nos provoca
dor, e desleixada quando pode nos dar prazer. Às vezes, o melhor remédio
para o mal seria esquecê-lo, mas esquecemos o remédio. Convém pois instruir
a memória a ter melhores hábitos, pois ela sozinha pode nos proporcionar o
céu ou o inferno. Os satisfeitos excetuamos: em sua inocência tola, estão
sempre felizes. (In Arte da Prudência).

___________

Baltasar, sê prudente. De que adianta xingar a memória (traiçoeira, falha, prolixa e desleixada)?

sábado, 24 de março de 2012

Checklist para o feriado de 21 de abril: Feriado em homenagem ao herói Tiradentes, também patrono cívico do Brasil

Comprar um bolo de aniversário;


Comprar uma barba falsa para usar durante o feriado;


Pegar emprestado uma camisola (branca) da minha mãe;


Reencenar os momentos finais da vida dele;


Ler os discursos deles (se houver);


Comprar alicate e sair na rua ameaçando arrancar os dentes das pessoas (repensar essa alternativa);

Instituir um concurso de desenhos sobre Tiradentes;

Verificar se há algum ritual oficial em homenagem ao herói nacional. Se não houver, inventar um.

Descobrir as comidas preferidas do herói. Se não houver, fazer um cardápio à base de comida mineira (verificar delivery).


Faltam só 28 dias!

sexta-feira, 23 de março de 2012

quinta-feira, 22 de março de 2012

RESGATANDO XINGAMENTOS ANTIGOS(13): RATONEIRO

"Ratoneiro" [de ratão + eiro, seg. padrão erudito]. S.m. ladrão que faz pequenos furtos. (Buarque de Holanda, 1999, p. 1709).

Ratoneiro é quem faz ratonice, gatunagem. É quem gatunha,gatura, gadunha, em síntese, confunde o alheio com o seu.

Infelizmente essa qualidade de gente só mudou de nome: larápio, gatuno, ladrão, descuidista.

Modo de usar (recomendação): apesar de ser relativamente fácil identificar os ratoneiros, há que se ter muito cuidado na indicação do público-alvo do xingamento. Por exemplo, quem gadunha dinheiro público jamais poderá ser tratado como mero "ratoneiro", porque esse ato afeta a todos os brasileiros.

Uso: "Fulano é um ratoneiro miserável".

terça-feira, 20 de março de 2012

Preparativos para o feriado de 21 de abril (Tiradentes): reflexões sobre o significado da Inconfidência Mineira

Mineiros são as pessoas nascidas no Estado das Minas Gerais, que se situa na região Sudeste do Brasil.

Os mineiros cultivam a fama de serem as pessoas mais educadas e discretas do Brasil:


http://www.jumentrix.com.br/2011/03/mineiro-e-discreto-educado.html


Nós crescemos ouvindo esse esteriótipo: mineiro é discreto, mineiro é calado, mineiro come quietinho. Tem até música celebrando essa discrição toda:

Mineirinho - de Alexandre Pires

"Eu não tenho culpa de comer quietinho
No meu cantinho boto pra quebrar
Levo a minha vida bem do meu jeitinho
Sou de fazer não sou de falar (bis)
Quer saber o que tenho pra lhe dar
Vai fazer você delirar
Tem o sabor de queijo com docinho
Meu benzinho você vai gostar
É tao maneiro uaí
É bom demais
Não tem como duvidar
O meu tempero uaí
Mineiro faz
Quem prova se amarra
Aí aí não tem como duvidar
Faz faz quem prova se amarra".

Então, como é que a gente vai compatibilizar esse caráter discreto com um movimento libertário frustrado caracterizado, exatamente, pela indiscrição: A Inconfidência Mineira. Parece uma contradição em seus próprios termos, não é?

Inconfidente é aquele que viola o dever de sigilo. Então, pelo menos um mineiro, em algum período da nossa história, falou o que não devia.

Afinal, quem nomeou esse movimento libertário de "Inconfidência". Será que os participantes se denominavam assim?

Em 2008 eu fui a Minas Gerais, e lá ouvi uma piada histórico-sociológica que eu nunca esqueci. Eu perguntava a um nativo porque os mineiros são conhecidos pela discrição, ele respondeu que "da última vez que um mineiro falou demais, um cara morreu". Ele estava falando de Tiradentes, que foi delatado pela inconfidência de algum de seus companheiros.


Tiradentes, ele mesmo um bom mineiro, não falou nada e nem entregou ninguém (e por isso é considerado mártir-herói) . É por isso que eu não concordo quando o chamam de inconfidente. Ele não foi inconfidente, ao contrário, foi o único que guardou segredo.


Não sei se essa inconfidência (que culminou com a morte de um cara, segundo a piada) constitui-se em uma memória coletiva tão traumática ao ponto de moldar a discrição dos mineiros.

Lá parece haver a sensação de que falar demais é até pecado. Parece que nesse caso a História ensinou mesmo.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Citações sobre a memória - Luis Buñuel

"É preciso começar a perder a memória, ainda que se trate de fragmentos desta, para perceber que é esta memória que faz toda a nossa vida. Uma vida sem memória não seria uma vida, assim como uma inteligência sem possibilidade de exprimir-se não seria uma inteligência. Nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nossa ação, nosso sentimento. Sem ela, não somos nada. "

__________________

Exatamente, moço.

domingo, 18 de março de 2012

Memória poética: Augusto dos Anjos

Ricordanza della mia gioventú

A minha ama-de-leite Guilhermina
Furtava as moedas que o Doutor me dava.
Sinhá-Mocinha, minha mãe, ralhava...
Via naquilo a minha própria ruína!

Minha ama, então, hipócrita, afetava
Susceptibilidades de menina:
"- Não, não fora ela -" E maldizia a sina,
Que ela absolutamente não furtava.

Vejo, entretanto, agora, em minha cama,
Que a mim somente cabe o furto feito...
Tu só furtaste a moeda, o oiro que brilha...

Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama,
Eu furtei mais, porque furtei o peito
Que dava leite para a tua filha!

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Lembranças do sinhôzinho que foi Augusto dos Anjos.

sábado, 17 de março de 2012

Preparativos para o dia 21 de abril: Reverência a Tiradentes

Tiradentes é o Patrono Cívico da Nação Brasileira e herói nacional.

Apesar dos títulos pomposos, a verdade é que eu NUNCA participei de nenhuma festividade em sua homenagem.

Na verdade, o único festejo em que nós participamos juntos (Eu e Tiradentes) foi um carnaval em Ouro Preto, no longíquo ano de 2008:






Vocês podem observar que há uma estátua de Tiradentes ao fundo (em cima de um pedestal), no local onde se conta que a sua cabeça foi exposta, e eu estou tirando a foto.



Bem, eu não acho que o carnaval seja um lugar adequado para heróis e patronos. A consequência disso?

Não sei quem foi, ou quem começou. Mas lá pelas tantas horas, alguém começou a gritar para a estátua de Tiradentes: "Tira! Tira! Tira!". E todo mundo que estava lá, inebriado, também gritou em apoio. A idéia era que o mártir fizesse um striptease, para brincar o carnaval.

Ainda bem que ele não concordou.

Apenas contei essa história (verídica, e tenho testemunhas) para mostrar que nós não reverenciamos Tiradentes, e isso deveria mudar. Por isso, a partir de hoje este blog está em preparativos para homenageá-lo, o que será objeto de uma campanha específica.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Repercussões da decisão da Corte Interamericana de Direitos (1)

Além de toda a discussão acadêmica que provocou desde que foi proferida, a decisão da Corte Interamericana de Direitos teve o seu primeiro resultado concreto: o Ministério Público Federal ingressou com uma ação penal contra o Sr. Sebastião Curió Rodrigues de Moura pelo desaparecimento forçado e sequestro (ainda em curso) de cidadãos brasileiros.

O processo foi distribuído à 2ª Vara Federal em Marabá, Estado do Pará, e assumiu o nº 0001162-79.2012.4.01.3901.

A tese jurídica abraçada pela referida decisão que eu, particularmente, entendo ser correta é a de que os crimes de cárcere, sequestro e desaparecimento forçado são contínuos, ou seja, estão ainda em curso, e portanto não foram atingidos pela anistia.

É muito importante fazer essa distinção porque nesses casos é possível conciliar decisões judiciais que são aparentemente contraditórias (do Supremo Tribunal Federal e da Corte Interamericana), mas que na verdade se reforçam mutuamente no caso dos cidadãos que continuam desaparecidos.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Lembrar Augusto dos Anjos

Na esteira das comemorações do centenário de publicação de "Eu", vamos acrescentar à lista de posts uma rápida biografia do poeta Augusto dos Anjos.

Ele nasceu no Estado da Paraíba, em 20 de abril de 1884, no Engenho Pau d'Arco, situado no município de Sapé. A casa onde o poeta nasceu e passou a infância é protegida pelo Instituto Histórico e Artístico da Paraíba (IPHAEP), e pode ser visitada pelo público.

O pé de tamarindo, que tanta vezes ilustrou o azedume da vida nos poemas dele, ainda continua lá.

Augusto dos Anjos formou-se Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Recife, que hoje integra a Universidade Federal de Pernambuco, mas não exerceu a profissão de advogado. Foi professor e poeta, e faleceu no dia 12 de novembro de 1914 (de tuberculose ou pneumonia).

Muitas estórias cercam de mistério a vida de Augusto dos Anjos. Uma das mais sinistras (e não comprovada) é de que o poema "Árvore da Serra" (cf. http://www.jornaldepoesia.jor.br/augusto.html#arvore) relata o triste destino de uma namorada dele. A paixão era proibida porque a moça era pobre e ele, filho da elite açucareira, então mandaram matá-la.

Augusto dos Anjos é um dos meus poetas preferidos, e acredito que só um grande poeta de verdade pode transformar em beleza toda aquela porcaria que lhe servia de matéria-prima. Não é fácil fazer poemas com "gosma", "escarro", "vermes", "putrefação"...

Tem que ser muito artista, mesmo:

"Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
"Psicologia de um vencido"

Confira outros posts em homenagem ao centenário de publicação de "Eu" :

http://direitoamemoria.blogspot.com/2012/02/centenario-do-livro-eu-de-augusto-dos.html

http://direitoamemoria.blogspot.com/2012/02/comemoracoes-do-centenario-de-eu-de.html

http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2012/03/eu-centenario.html

quarta-feira, 14 de março de 2012

Heróis Brasileiros: Tiradentes

O direito à memória individual dos mortos, efetivado sob a forma de respeito, pode ser manifestado pela defesa através dos familiares (os gestores da boa memória), conforme estipula o Código Civil Brasileiro, mas também por outras três maneiras: a lembrança celebrativa, em relação aos vultos e personalidades históricas; a reabilitação, quando o indivíduo falecido não teve em vida o reconhecimento ao qual fazia jus e o direito genérico de respeito aos mortos (DANTAS, 2010).

A consagração de um indivíduo como "herói da Pátria" é um exemplo notável de lembrança celebrativa, que também pode servir para reabilitar quem, em vida, não foi reconhecido ou assumiu um papel nos fatos históricos que posteriormente foi ressignificado, servindo também como reabilitação.

Nós começamos a conhecer os heróis brasileiros no post http://direitoamemoria.blogspot.com/2012/03/os-herois-do-brasil.html, e como eu gostaria de conhecer mais da história de cada um deles, aos poucos e sem data marcada, vou tentar escrever posts.

O primeiro deles - Tiradentes - já tivemos a oportunidade de estudar como um exemplo de reabilitação póstuma (uma das formas de respeito à memória dos mortos identificada), e depois dela também se pode verificar a lembrança celebrativa.

Ao contrário do que afirma a Prefeita Darci Veras, de Ribeirão Preto (ao 1:13s): http://www.youtube.com/watch?v=UdQ_aAAl3DE, Tiradentes não proclamou a Independência do Brasil, nem gritou "Independência ou Morte". Aliás, não sabemos nem se o mítico D. Pedro I (que também é herói do Brasil!), disse tal frase.

Na verdade, Tiradentes (Joaquim José da Silva Xavier, que arrancava dentes) participou de um movimento libertário no século XVIII. A iniciativa não deu certo, e ele assumiu toda a responsabilidade pela tentativa de independência, sendo sozinho condenado à morte e salvando os seus companheiros, daí a sua condição de mártir.

Foi executado em 21 de abril de 1792, e por isso essa data é feriado no Brasil.

O personagem Tiradentes é um estudo de caso interessante do ponto de vista da construção da memória individual e coletiva porque:

1 - Sua condenação e o seu crime eram infames perante o Direito Português, recaindo como uma maldição pública sobre a sua memória e sobre os seus descendentes;

2 - Era preciso então desconstruir a memória pública de um infame, o que foi feito pelo artigo 3º da Lei nº 4.897, de 9 de dezembro de 1965:

"Art. 3º Esta manifestação do povo e do Govêrno da República em homenagem ao Patrono da Nação Brasileira visa evidenciar que a sentença condenatória de Joaquim José da Silva Xavier não é labéu que lhe infame a memória, pois é reconhecida e proclamada oficialmente pelos seus concidadãos, como o mais alto título de glorificação do nosso maior compatriota de todos os tempos".

Nessa mesma Lei foi considerado "Patrono Cívico da Nação Brasileira", mas ainda não era herói.

3 - Depois, a sua imagem pública (quanto às formas de representação) foi estipulada no Decreto 58.168, de 11 de abril de 1966, que estabelece como modelo para reprodução da figura de Tiradentes, a efígie de Joaquim José da Silva Xavier existente em frente ao Palácio Tiradentes, na cidade do Rio de Janeiro.

Essa representação é a que todos temos na memória: de um homem altivo, barbudo, vestindo o camisolão dos condenados, e muito parecido com Jesus Cristo.

Devido à evidente restrição à liberdade artística, essa norma foi revogada pelo Decreto nº 78.101, de 20 de julho de 1976.

4 - Finalmente, através da Lei n° 7.919, de 11 de dezembro de 1989, o seu nome foi inscrito no Livro dos Heróis da Pátria.

5 - Além de ser herói, a memória de Tiradentes é celebrada através do seu nome em cidades e logradouros públicos, além do feriado, evidentemente.


Referência.

DANTAS, Fabiana Santos. Direito fundamental à memória. Curitiba: Juruá, 2010.

segunda-feira, 12 de março de 2012

O desaparecimento forçado de Rubens Paiva

Rubens Paiva é um cidadão brasileiro, presumidamente morto, cujo desaparecimento forçado assombra a nossa memória coletiva.

Para conhecer a sua história, recomendamos assistir ao seguinte vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=5u-GsSka_Qw

Nós sabemos porque Rubens Paiva desapareceu, mas não se pode entender porque até hoje não se sabe o paradeiro dele.

Até anonimamente essa informação deveria chegar à família ou às autoridades, para que se pudesse prestar as honras fúnebres que qualquer cidadão tem o direito de receber, e sua família de prestar-lhe.

domingo, 11 de março de 2012

Os heróis do Brasil

A lei nº 11.597, DE 29 NOVEMBRO DE 2007 dispõe sobre a inscrição de nomes no Livro dos Heróis da Pátria:


"O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1o O Livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, destina-se ao registro perpétuo do nome dos brasileiros ou de grupos de brasileiros que tenham oferecido a vida à Pátria, para sua defesa e construção, com excepcional dedicação e heroísmo.

Art. 2o A distinção será prestada mediante a edição de Lei, decorridos 50 (cinqüenta) anos da morte ou da presunção de morte do homenageado.

Parágrafo único. Excetua-se da necessidade de observância de prazo a homenagem aos brasileiros mortos ou presumidamente mortos em campo de batalha.

Art. 3o O registro levará em consideração o transcurso de data representativa de feito memorável da vida do laureado.

Art. 4o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 29 de novembro de 2007; 186o da Independência e 119o da República.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
Gilberto Gil "


Até o momento foram inscritos os seguintes nomes:


Anna Justina Ferreira Nery (Lei 12105/2009)
Antônio de Sampaio, o Brigadeiro Sampaio (Lei 11932/2009)
Barão do Rio Branco (lei 12502/2011)
D. Pedro I (Lei 9828/99)
Domingos Martins (Lei 12488/2011)
Francisco Manuel Barroso da Silva - o Almirante Barroso (Lei 11.120/2005)
Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes (10952/2004)
Frei Caneca (Lei 11528/2007)
Getúlio Dornelles Vargas (Lei 12.326/2010)
Heitor Villa-Lobos (Lei 12445/2011)
Ildefonso Pereira Correia, o Barão de Serro Azul (Lei 11863/2008)
João de Deus do Nascimento ((Lei 12.391/2011, inscrição coletiva dos participantes da Revolta dos Búzios)
Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes
Joaquim Marques Lisboa, o Marquês de Tamandaré (Lei 10.796/2003)
José Bonifácio de Andrada e Silva (lei 11.135/2005)
José Hipólito da Costa Furtado de Mendonça (12.283/2010)
José Plácido de Castro, o Libertador do Acre (Lei 10440/2002)
José Tiaraju, o Sepé Tiaraju (Lei 12.032/2009)
Júlio Cezar Ribeiro de Souza (Lei 12.446/2011)
Lucas Dantas de Amorim Torres (Lei 12.391/2011, inscrição coletiva dos participantes da Revolta dos Búzios)
Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias (10641/2003)
Luís Gonzaga das Virgens e Veiga (Lei 12.391/2011, inscrição coletiva dos participantes da Revolta dos Búzios)
Manuel Faustino Santos Lira (Lei 12.391/2011, inscrição coletiva dos participantes da Revolta dos Búzios)
Manuel Luís Osorio – o Marechal Osorio (11680/2008)
Marechal-do-Ar Alberto Santos Dumont, o Pai da Aviação (lei 11.298/2006)
Marechal Manoel Deodoro da Fonseca (Lei 7919/89)
Padre José de Anchieta (Lei 12284/2010)
Seringueiros Soldados da Borracha(Lei 12447/2011)
Zumbi dos Palmares (Francisco) (Lei 9315/96)

Inscrição coletiva dos heróis paulistas da Revolução Constitucionalista de 1932 (Lei 12.430/2011):Mário Martins de Almeida, Euclydes Bueno Miragaia, Dráusio Marcondes de Souza e Antônio Américo de Camargo Andrade, historicamente conhecidos como Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (MMDC).


Você conhece esses heróis, ou sabe o motivo de sua inscrição?

terça-feira, 6 de março de 2012

Citações sobre a memória - Vilhelm Ekelund

"Só nos recordamos verdadeiramente daquilo que nos era destinado. A memória não lê as cartas alheias."

______________

Comentário: é verdade. Se, como diz Le Goff, a memória se constrói com "atenção e intenção", parece haver dois elementos que as despertam: a afinidade e o interesse.

Há detalhes, temas, objetos que despertam o meu interesse, logo,estarei mais atenta a eles e com intenção de focar a minha observação, o que sem dúvida contribui para formar uma memória mais nítida.

Há temas que JAMAIS vão chamar a minha atenção e provavelmente não vou ter nenhum conhecimento sobre eles, muito menos memórias. Segundo Eklund, é porque não estavam destinados a mim.

Mas, infelizmente, às vezes eu memorizo coisas que me chateiam e que não têm nenhuma afinidade comigo. Simplesmente eu estava por ali, a informação passou e os meus sentidos captaram, e agora eu não consigo esquecer. Por exemplo, e INFELIZMENTE, eu sei de todos os maridos, ex-maridos e namorados de determinada celebridade.

Por que essas informações irritantemente irrelevantes não são esquecidas? (agora mesmo estou lembrando da extensa lista, droga). Poxa, parece que mesmo sem afinidade e interesse essa memória estava destinada a mim.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Lembretes para um mundo melhor (1): andar de bicicleta

Nessa série do blog vou trazer um conjunto de medidas que poderiam constar da plataforma eleitoral dos futuros candidatos. Vou votar naquele que tenha, pelos menos umas vinte propostas pré-aprovadas.

A primeira dessas propostas pré-aprovadas é o incentivo governamental ao uso da bicicleta como meio de transporte, através do pagamento da "bolsa-bike", ou de isenção fiscal aos empregadores que estimularem o uso do meio de transporte pelos seus empregados.

Como diz uma grande amiga minha, vamos copiar os melhores: http://br.noticias.yahoo.com/blogs/vi-na-internet/b%C3%A9lgica-paga-para-cidad%C3%A3o-ir-bicicleta-ao-trabalho-131205687.html.

Após cinco anos, poderia ser feita uma análise para verificar os resultados dessa política. O primeiro índice de sucesso seria a redução do número de acidentes com motos, que já podem ser considerados uma epidemia nacional.

Política pública de transporte eficiente, ordenamento urbano e do trânsito, contribuições para a política da saúde, redução do número de acidentes, menor gasto público com rodovias. Já que parece não haver um limite legal estabelecido para a quantidade de carros que podem circular em uma cidade (ou ficar parados em engarrafamentos, dependendo do horário), o uso da bicicleta seria uma alternativa muito boa.

Seria bom, também, que as bicicletas parassem de concorrer com os ônibus, visto que aqui ambos utilizam a faixa da direita.

domingo, 4 de março de 2012

Grilo na cuca

"Grilo na cuca" é uma daquelas expressões intraduzíveis forjadas nas oficinas da língua portuguesa.

Você lembra do que significa? Você ainda usa?

Grilo na Cuca significa que você está preocupado com alguma coisa. Muitas pessoas ainda falam que estão "griladas" com alguma coisa, mas nunca mais ouvi ninguém dizer (além de mim) que está com grilo na cuca.

Acho importante preservar essa fauna linguística: grilo na cuca, pulga atrás da orelha, bicho de pé, piolho que anda pela cabeça dos outros (para quem segue sem crítica a opinião alheia), e todos os seres vivos que pululam no corpo humano de forma simbólica.

Se bem que o bicho de pé e o piolho devem ser combatidos quando não estão disfaçardos de metáfora.

Enfim, para contextualizar o uso da expressão "grilo na cuca", nada melhor do que esse vídeo de Dudu França, cantando o seu maior sucesso:http://www.youtube.com/watch?v=PRYtO2qgLcM.

Esse vídeo é inesquecível.

sábado, 3 de março de 2012

Comissão da verdade: novas críticas dos militares

Estou acompanhando com interesse todas as repercussões sobre a comissão da verdade, e dessa vez, os militares da reserva reafirmaram as críticas à "idéia" de Comissão, depois de estrategicamente recuarem (cf. http://www.redebrasilatual.com.br/temas/cidadania/2012/02/militares-reafirmam-criticas-a-dilma-afrontam-amorim-e-condenam-comissao-da-verdade).

Para conhecer a primeira leva de críticas, cf. http://direitoamemoria.blogspot.com/2012/02/comissao-da-verdade-manifesto.html.

Para quem quer conhecer outras versões dessa estória, há o sítio http://averdadesufocada.com/.

A única observação que eu faço até o momento, pois ainda não terminei de analisar a Comissão que sequer foi instalada, é que a verdade não depende de "direita" e "esquerda", mas de saber e comprovar o que de fato aconteceu.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Sítios importantes para a memória (1) - divulgação

Iniciativas importantes para a preservação da memória política:

http://www.memoriaabierta.org.ar/

http://www.nucleomemoria.org.br/


Memória individual

http://memoriaindividual.wordpress.com/

Memória virtual brasileira.

http://bndigital.bn.br/redememoria/


No fim da nossa página, à direita, há vários sítios interessantes, que podem ser acessados.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Paleontologia Imaginária (5): Jogo do bicho fóssil

O Jogo do Bicho, dizem, foi inventado no século XIX pelo Barão de Drummond para ajudar a custear o Zoológico do Rio de Janeiro.

Primeiro, virou moda e disseminou-se por todo Brasil. Hoje já se configura como costume "contra legem", uma prática mais que centenária difícil de combater, porque as pessoas sequer sabem que é ilícito.

Muito bem, esse post tem a finalidade de provar que o jogo do bicho não é apenas centenário, é milenar, pois foram encontradas evidências de que já era praticado na Pré-Historia. Observem:

Grupo 1: I-II-III-IV




Grupo 2: V-VI-VII-VIII






Grupo 3: IX-X-XI-XII




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Confira outros posts ad Série "Paleontologia Imaginária":




















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Só para prestar um serviço de utilidade pública, o artigo da Lei de Contravenções Penais que proíbe o jogo do bicho:

Art. 58 do DECRETO-LEI N.° 3.688, DE 3 DE OUTUBRO DE 1941- Explorar ou realizar a loteria denominada jogo do bicho, ou praticar qualquer ato relativo à sua realização ou exploração:

Pena - prisão simples, de 4 (quatro) meses a 1 (um) ano, e multa.