Quem me conhece sabe que eu sou louca por batata frita.
Embora não seja a comida mais saudável do mundo, ou saudável em qualquer medida, eu adoro.
Tudo isso para explicar que, há quase trinta anos, resolvi conhecer um restaurante novo na minha cidade e do qual todo mundo estava falando. Comida japonesa deliciosa, atendimento perfeito e feito pelas mãos do proprietário, o sr. Yoshi.
Quando lá cheguei, fui recebida por ele com toda a gentileza. E a minha intenção era realmente percorrer aquele cardápio inteiro, ingerindo os valores, as experiências e os sabores da cultura japonesa, com muito respeito e admiração.
Para a entrada e, antes dessa imersão maravilhosa, obviamente eu pedi batata frita.
Sr. Yoshi me olhou profundamente e disse: não há batata frita no cardápio.
Eu fiquei incrédula. Olhei a parte das entradas, não tinha. Procurei a parte de petiscos, onde geralmente elas também aparecem, e não tinha.
O desespero me fez até procurar depois das sobremesas, que geralmente encerram os cardápios. Não tinha.
Eu olhei com aquele jeito decepcionado e disse é, não tem mesmo.
Não sei se é um traço da cultura japonesa, ou se era só seu Yoshi sendo ele mesmo, mas aquela falta detectada no cardápio pareceu um grande erro imperdoável.
Eu já estava até conformada em pedir outras entradas, mas o assunto da batata frita se tornou um problema na nossa relação.
- Você queria comer batata frita como?, ele me perguntou.
- Entrada, eu respondi.
- Mas tem entradas melhores do que batata frita no cardápio, ele retrucou.
- Tudo bem, eu falei inocentemente. O senhor pode sugerir alguma?
- Qualquer uma das vinte entradas que consta nesse cardápio é melhor do que batata frita, ele disse.
(Nesse momento eu pensei que o tinha ofendido gravemente, então resolvi pedir a sugestão do chef, que era uma refeição completa escolhida inteiramente por ele).
Depois que eu fiz o pedido, respirei aliviada, achando que tudo ia dar certo.
Bem, quase.
Veio a entrada decorada com algumas batatas fritas.
Depois, os sushi de batata frita.
Tinha um temaki também, com umas batatas fritas espetadas.
Nessa altura, cada prato que chegava eu dava uma risada. Acho que ele se divertiu muito mostrando que pedir batata frita no restaurante dele não era adequado.
Foi um dos jantares mais engraçados da minha vida. Sim, também teve sobremesa adornada com batata frita.
Terminei o meu jantar e pedi a conta. Não ia falar com ele porque estava muito ocupado cozinhando.
Quando eu estava indo embora, ele veio à mesa. Agradeci, disse que tudo estava ótimo, e que ia recomendar a batata frita para todo mundo.
Nós rimos e eu voltei muitas vezes ao longo dos anos. E ele sempre colocava uma batata frita no meu sushi ou no meu temaki.
Yoshi faleceu e eu nunca mais fui ao restaurante, até hoje.
Passei na frente, e resolvi entrar. Pedi um cardápio, que mantém alguns pratos que ele fazia e lá, no finalzinho, tinha batata frita.
Dei um sorriso, e agradeci por lembrar de Yoshi, e daquele jantar tão delicioso e engraçado que ele me proporcionou há quase trinta anos.
Yoshi, hoje eu não pedi batata frita no seu restaurante.
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