Hora e lugar. Tempo maravilhoso de intervalo entre as aulas na minha infância, e onde desenvolvíamos as nossas incipientes relações sociais.
O lugar do recreio parecia uma praça de guerra, onde eram travados conhecimentos, surgiam amizades e inimizades, e as desigualdades sociais transpareciam nos comportamentos. Gosto muito de observar as pessoas recentes manejando os instrumentos de adaptação social, principalmente as normas jurídicas: não há como entender o direito de propriedade sem uma visita ao parquinho.
O meu recreio começava, todo dia, com um picolé de morango com leite. O meu colégio era muito grande, e o recreio era curto, então não dava para enfrentar a fila da cantina para comprar lanche. Nós só tínhamos duas alternativas: ou levar a refeição de casa (quanto pão com manteiga e açúcar a pessoa pode comer durante a vida?), ou encontrar meios alternativos, no caso, o picolé de Zé.
Passei anos tomando picolé, até que descobri que não gosto de sorvete. Sim, não gosto de sorvete e não sou uma pessoa pior por isso.
Eu me acostumei a passar o meu recreio com os meus irmãos. Apesar da diferença de idade, sempre fomos amigos porque tínhamos os mesmos interesses. E quando eu não queria ouvir os barulhos da felicidade do recreio, ia à biblioteca da escola. Mas, repito, o intervalo era muito curto e quase não dava para fazer nada.
Refletindo ontem sobre o assunto, cheguei à conclusão de que na verdade o recreio é cruel. Um exercício de liberdade, mas dentro das entranhas da instituição (Escola) que delimita o tempo e lugar de sua alegria. Que diz o que temos que aprender e como. Acho que Hobbes estava pensando nisso quando escreveu o seu Leviathan. Bem...talvez não.
O recreio também era a oportunidade de esperar que o Sapotizeiro, árvore frutífera e generosa, se dignasse derrubar seus frutos. Aqueles que não possuíam o dom da paciência tentavam derrubar as frutas a pedradas. O sapoti é tão marcante na nossa infância que, na semana passada, eu e meu irmão o comemos e imediatamente voltamos aos tempos do colégio.
Agora, respondendo à sua pergunta (de um aluno): não, os alunos da pós-graduação não têm direito a recreio.