Domingão é dia de almoçar na casa de mamãe. Logo depois de comer (porque com fome não sou de muita conversa), enquanto tomamos o tradicional cafezinho, sempre peço à minha mãe que relembre as estórias da família.
Hoje, nós lembramos da minha bisavó materna, Eulina. Tive o privilégio de conviver com a minha bisavó até os 22 anos de idade, e através das suas memórias entrar em contato com o Brasil do fim do século XIX e dos primórdios do século XX, com valores e linguajar da época.
Mais do que isso, tive a oportunidade de conhecer uma pessoa tão peculiar que forçosamente se tornou inesquecível.
Apesar de jurar possuir uma origem nobre e fidalga (nunca comprovada), a Condessa Eulina não teve uma vida fácil. Logo na infância, enfrentou o suicídio do seu pai, que perdeu todas as terras da família no jogo, e provavelmente por isso hoje tenho que trabalhar, ao invés de ser dondoca por vocação hereditária.
A Condessa tinha hábitos muito, muito, singulares. Por exemplo, e a despeito da etiqueta que se poderia esperar de uma fidalga, aboliu o uso de talheres só comia com as mãos, fazendo pequenos bolinhos com a comida.
Também tinha o hábito de, logo após o almoço, pingar uma gota de limão em cada olho como se fosse colírio, para evitar catataras. Eu presenciei várias aplicações dessas, e confesso, uma vez quase cheguei a experimentar, mas acabei me convencendo de que aquilo só poderia ser maluquice.
Lembro também, e isso eu gostaria de esquecer, que quando fazia calor minha bisavó costumava tirar a camisa e ficava com os seios à mostra. E não pensem que isso era decorrência da senectude que um dia atingirá todos nós. Não. Ela curtia fazer isso e fazia, para desespero de todos nós que possuímos a mentalidade do vestuário.
Além disso, minha bisavó era uma viajante como eu. Não gostava de ficar em um só lugar e sempre estava se mudando. Acho que essa dinâmica de fazer malas e bagagens era uma metáfora da sua própria e atribulada vida, e com certeza é mais compatível com a sua genealogia (essa sim mais provável) de cigana.
Lembramos da bisavó com saudades e também com muitas risadas, e esse domingo foi especial porque, in memorian, a Condessa Eulina estava conosco.
O brasileiro não tem memória.
Neste blog desmascaramos esta mentira.
Neste blog desmascaramos esta mentira.
domingo, 31 de julho de 2011
sábado, 30 de julho de 2011
Mais retorno de bens culturais
Em novembro de 2010 saiu a notícia de que o Metropolitan Museum of Art de Nova York ia devolver 19 peças da tumba de Tut ao Egito (cf. http://direitoamemoria.blogspot.com/2010/11/met-de-nova-york-devolve-19-objetos-da.html)
Como promessa é dívida...
"Cairo, 30 jul (EFE).- O Metropolitan Museum of Art de Nova York devolveu ao Egito 19 peças arqueológicas pertencentes à tumba do faraó Tutancâmon (1336-1327 a. C.), informou neste sábado o Conselho Supremo de Antiguidades egípcias (CSA).
Entre as peças, se destacam por seu valor um cachorro de bronze, de apenas dois centímetros de altura, um bracelete de lápis-lazúli, em forma de esfinge, e um colar de contas.
O anúncio foi feito pelo secretário-geral do CSA, Mohammed Abdel Maqsud, em comunicado no qual precisou que o subdiretor do Departamento de Arqueologia Egípcia, Atef Abul Dahab, chegará ao Cairo desde os Estados Unidos com as antiguidades na terça-feira.
O museu de Nova York decidiu entregar esses objetos ao Egito após uma série de negociações entre responsáveis egípcios e americanos.
Os 19 objetos, todos de pequeno tamanho, foram encontrados na tumba de Tutancâmon, descoberta pelo arqueólogo britânico Howard Carter em 1922 na ribeira oeste do rio Nilo, na localidade monumental de Luxor, localizada 700 quilômetros ao sul da capital.
Nessa época, o Governo egípcio permitia que os arqueólogos que trabalhavam com recursos próprios ficassem com uma parte substancial de suas descobertas.
Abdel Maqsud destacou o gesto do museu nova-iorquino, especialmente depois de a instituição ter se transformado em uma grande aliada do CSA para recuperar peças arqueológicas levadas ilegalmente do Egito.
Nesse sentido, o responsável egípcio lembrou que no passado o Metropolitan proporcionou ao Egito informações que ajudaram a recuperar um pedaço de rocha que fazia parte do templo faraônico de Karnak, situado em Luxor.
O CSA adiantou que as 19 peças serão exibidas junto ao restante das antiguidades pertencentes a Tutancâmon no Museu Egípcio do Cairo". Fonte: http://br.omg.yahoo.com/noticias/eua-devolvem-ao-egito-19-peças-arqueológicas-tumba-092905657.html;_ylt=AoHkHdrjCff0z4g2_xhbOUbAFsF_;_ylu=X3oDMTNnczg4dGZ1BHBrZwMxN2I3Zjk3OS04YjAwLTM1NDctOGJkMy01MGIyNzFkYmNiNDEEcG9zAzEEc2VjA01lZGlhUHJvdmlkZXJPdXRsaW5rBHZlcgM1ZTNjY2M0MC1iYThlLTExZTAtOTc3Mi1mOGI5Y2EyYTk4MTQ-;_ylg=X3oDMTJybzIyaWlhBGludGwDYnIEbGFuZwNwdC1icgRwc3RhaWQDYjM4Zjc0MDYtNzdiMS0zYmQ5LThlNTYtODBmYzQ2YThjYWQ4BHBzdGNhdANub3RpY2lhcwRwdANzdG9yeXBhZ2U-;_ylv=3
Aqui no blog nós acompanhamos as iniciativas de retorno e restituição de bens culturais aos seus lugares de origem, como prova da efetividade do direito à memória coletiva e realização do princípio da conservação in situ.
Sobre esse assunto, já escrevemos posts mostrando a tendência de retorno e restituição (e a diferença entre ambos)de bens culturais:
a) devolução de peças incas ao Peru : http://direitoamemoria.blogspot.com/2011/04/pecas-incas-sao-devolvidas-ao-peru-apos.html
b) retorno de bens culturais, com um belíssimo vídeo de Costa Gavras sobre o Partenon (cfhttp://direitoamemoria.blogspot.com/2011/03/retorno-de-bens-culturais.html). É uma campanha para que devolvam os frisos do monumento à Grécia. Assistam ao vídeo!
O Brasil também está despossuído de importantes artefatos para a nossa memória coletiva, podendo ser citadas peças sagradas de povos indígenas, fósseis, obras de arte, espalhados por museus e coleções privadas por todo o mundo, que também deveriam ser restituídos ou retornados.
Como promessa é dívida...
"Cairo, 30 jul (EFE).- O Metropolitan Museum of Art de Nova York devolveu ao Egito 19 peças arqueológicas pertencentes à tumba do faraó Tutancâmon (1336-1327 a. C.), informou neste sábado o Conselho Supremo de Antiguidades egípcias (CSA).
Entre as peças, se destacam por seu valor um cachorro de bronze, de apenas dois centímetros de altura, um bracelete de lápis-lazúli, em forma de esfinge, e um colar de contas.
O anúncio foi feito pelo secretário-geral do CSA, Mohammed Abdel Maqsud, em comunicado no qual precisou que o subdiretor do Departamento de Arqueologia Egípcia, Atef Abul Dahab, chegará ao Cairo desde os Estados Unidos com as antiguidades na terça-feira.
O museu de Nova York decidiu entregar esses objetos ao Egito após uma série de negociações entre responsáveis egípcios e americanos.
Os 19 objetos, todos de pequeno tamanho, foram encontrados na tumba de Tutancâmon, descoberta pelo arqueólogo britânico Howard Carter em 1922 na ribeira oeste do rio Nilo, na localidade monumental de Luxor, localizada 700 quilômetros ao sul da capital.
Nessa época, o Governo egípcio permitia que os arqueólogos que trabalhavam com recursos próprios ficassem com uma parte substancial de suas descobertas.
Abdel Maqsud destacou o gesto do museu nova-iorquino, especialmente depois de a instituição ter se transformado em uma grande aliada do CSA para recuperar peças arqueológicas levadas ilegalmente do Egito.
Nesse sentido, o responsável egípcio lembrou que no passado o Metropolitan proporcionou ao Egito informações que ajudaram a recuperar um pedaço de rocha que fazia parte do templo faraônico de Karnak, situado em Luxor.
O CSA adiantou que as 19 peças serão exibidas junto ao restante das antiguidades pertencentes a Tutancâmon no Museu Egípcio do Cairo". Fonte: http://br.omg.yahoo.com/noticias/eua-devolvem-ao-egito-19-peças-arqueológicas-tumba-092905657.html;_ylt=AoHkHdrjCff0z4g2_xhbOUbAFsF_;_ylu=X3oDMTNnczg4dGZ1BHBrZwMxN2I3Zjk3OS04YjAwLTM1NDctOGJkMy01MGIyNzFkYmNiNDEEcG9zAzEEc2VjA01lZGlhUHJvdmlkZXJPdXRsaW5rBHZlcgM1ZTNjY2M0MC1iYThlLTExZTAtOTc3Mi1mOGI5Y2EyYTk4MTQ-;_ylg=X3oDMTJybzIyaWlhBGludGwDYnIEbGFuZwNwdC1icgRwc3RhaWQDYjM4Zjc0MDYtNzdiMS0zYmQ5LThlNTYtODBmYzQ2YThjYWQ4BHBzdGNhdANub3RpY2lhcwRwdANzdG9yeXBhZ2U-;_ylv=3
Aqui no blog nós acompanhamos as iniciativas de retorno e restituição de bens culturais aos seus lugares de origem, como prova da efetividade do direito à memória coletiva e realização do princípio da conservação in situ.
Sobre esse assunto, já escrevemos posts mostrando a tendência de retorno e restituição (e a diferença entre ambos)de bens culturais:
a) devolução de peças incas ao Peru : http://direitoamemoria.blogspot.com/2011/04/pecas-incas-sao-devolvidas-ao-peru-apos.html
b) retorno de bens culturais, com um belíssimo vídeo de Costa Gavras sobre o Partenon (cfhttp://direitoamemoria.blogspot.com/2011/03/retorno-de-bens-culturais.html). É uma campanha para que devolvam os frisos do monumento à Grécia. Assistam ao vídeo!
O Brasil também está despossuído de importantes artefatos para a nossa memória coletiva, podendo ser citadas peças sagradas de povos indígenas, fósseis, obras de arte, espalhados por museus e coleções privadas por todo o mundo, que também deveriam ser restituídos ou retornados.
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Direito à memória coletiva
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Memória brasileira: o futebol, patrimônio cultural brasileiro
O futebol é patrimônio cultural no Brasil.
É uma manifestação que vai além daquelas pessoas baratinadas correndo atrás de uma bola, e possui um significado profundo para a coesão nacional brasileira.
Se para os nativos da América Central o jogo de bola era uma metáfora para a criação do universo, com abordagem mitológica, no Brasil o futebol representa o continuum, a permanência. Há poucas certezas para quem vive no Brasil, e uma delas, é que haverá jogo de futebol no domingo, em qualquer de suas formas, desde a simples "pelada" até jogos entre clubes.
Os clubes de futebol, inclusive, estão entre as mais vetustas instituições brasileiras, sendo muitas delas mais que centenárias. Não é à toa que trazem os seus problemas e vícios tão enraizados, coisa que só o passar incessante do tempo consegue fazer.
O palco onde ocorrem os jogos é um lugar de memória. Os estádios brasileiros, alguns dos quais são exemplares da arquitetura modernista, são monumentos à paixão nacional.
Para assistir aos jogos os brasileiros vestem-se de maneira diferente, comportam-se de maneira diferente, entoam canções e loas especiais. Há uma gastronomia típica dos estádios, sendo uma de suas principais características as cólicas que provoca.
Há também uma mentalidade tradicional, que é na verdade uma desrazão, no cultivo de uma rivalidade que por vezes gera violências.
Essa manifestação cultural chamada "futebol" no Brasil é muito complexa, e contém os elementos de todo grande romance: paixão, vida, morte, cores, cheiros, sexo...É um momento humano com todas as suas contradições, tendo ao fundo pessoas baratinadas correndo atrás de uma bola.
Não há dúvidas de que o futebol no Brasil é um "lugar de memória" porque é um topos partilhado, aceito e transmitido pelo grupo social (SMOLKA, 2000, p. 188). É um indicador empírico do que é comum aos brasileiros, tão apropriado, tão nosso, que todos os dias há alguém vivendo e discutindo sobre futebol.
Embora aqui exista uma convenção de que "gosto não se discute", assim como não se deve discutir sobre política, religião e futebol, esse último assunto parece ser o mais presente. Basta que alguém comece que, imediatamente, tal como moscas no mel, juntam-se brasileiros para dar a sua opinião.
E não importa se o time é de primeira divisão, série a, b,c, z, ou se o campeonato é nacional, internacional, ou do time da rua de baixo contra o da rua de cima. As pessoas assistem, teorizam, explanam, e assim criam cultura.
No trabalho, em casa, nos bares a piada primeira é sempre sobre o time que alguém torce. Às vezes, o pedigree da pessoa é aferido pela sua afiliação futebolística: é comum ouvir "ou rubro-negro", "sou tricolor", "sou alvi-negro", além da identificação zoomórfica (sou peixe, porco, galo) que, sem dúvida, faz de nós uma das tribos mais estranhas do mundo.
REFERÊNCIAS
POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol 2, nº 3, p. 3-15, 1989.
SMOLKA, Ana Luíza Bustamante. A memória em questão: uma perspectiva histórico-cultural. Educação e Sociedade, nº 71, vol. 21, p. 166-193, jul. 2000.
É uma manifestação que vai além daquelas pessoas baratinadas correndo atrás de uma bola, e possui um significado profundo para a coesão nacional brasileira.
Se para os nativos da América Central o jogo de bola era uma metáfora para a criação do universo, com abordagem mitológica, no Brasil o futebol representa o continuum, a permanência. Há poucas certezas para quem vive no Brasil, e uma delas, é que haverá jogo de futebol no domingo, em qualquer de suas formas, desde a simples "pelada" até jogos entre clubes.
Os clubes de futebol, inclusive, estão entre as mais vetustas instituições brasileiras, sendo muitas delas mais que centenárias. Não é à toa que trazem os seus problemas e vícios tão enraizados, coisa que só o passar incessante do tempo consegue fazer.
O palco onde ocorrem os jogos é um lugar de memória. Os estádios brasileiros, alguns dos quais são exemplares da arquitetura modernista, são monumentos à paixão nacional.
Para assistir aos jogos os brasileiros vestem-se de maneira diferente, comportam-se de maneira diferente, entoam canções e loas especiais. Há uma gastronomia típica dos estádios, sendo uma de suas principais características as cólicas que provoca.
Há também uma mentalidade tradicional, que é na verdade uma desrazão, no cultivo de uma rivalidade que por vezes gera violências.
Essa manifestação cultural chamada "futebol" no Brasil é muito complexa, e contém os elementos de todo grande romance: paixão, vida, morte, cores, cheiros, sexo...É um momento humano com todas as suas contradições, tendo ao fundo pessoas baratinadas correndo atrás de uma bola.
Não há dúvidas de que o futebol no Brasil é um "lugar de memória" porque é um topos partilhado, aceito e transmitido pelo grupo social (SMOLKA, 2000, p. 188). É um indicador empírico do que é comum aos brasileiros, tão apropriado, tão nosso, que todos os dias há alguém vivendo e discutindo sobre futebol.
Embora aqui exista uma convenção de que "gosto não se discute", assim como não se deve discutir sobre política, religião e futebol, esse último assunto parece ser o mais presente. Basta que alguém comece que, imediatamente, tal como moscas no mel, juntam-se brasileiros para dar a sua opinião.
E não importa se o time é de primeira divisão, série a, b,c, z, ou se o campeonato é nacional, internacional, ou do time da rua de baixo contra o da rua de cima. As pessoas assistem, teorizam, explanam, e assim criam cultura.
No trabalho, em casa, nos bares a piada primeira é sempre sobre o time que alguém torce. Às vezes, o pedigree da pessoa é aferido pela sua afiliação futebolística: é comum ouvir "ou rubro-negro", "sou tricolor", "sou alvi-negro", além da identificação zoomórfica (sou peixe, porco, galo) que, sem dúvida, faz de nós uma das tribos mais estranhas do mundo.
REFERÊNCIAS
POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol 2, nº 3, p. 3-15, 1989.
SMOLKA, Ana Luíza Bustamante. A memória em questão: uma perspectiva histórico-cultural. Educação e Sociedade, nº 71, vol. 21, p. 166-193, jul. 2000.
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quinta-feira, 28 de julho de 2011
O drakkar
Apesar de toda a tristeza, tentei lembrar o que eu sabia de bom sobre a Noruega. Eu gosto, particularmente, dos barcos-dragão (drakkar).
Olha aí um drakkar que Robinson (big brother) fez:

Olha aí um drakkar que Robinson (big brother) fez:
Nessa semana descobri que sei pouco sobre a Noruega. Tentei lembrar mas parece que a minha memória parou no tempo dos vikings, só penso em barcos-dragão e fiordes. Não sei nada sobre a gastronomia ou literatura norueguesas, por exemplo, o que é uma pena.
Para mim é importante tentar equilibrar as memórias ("positivas" e "negativas") porque se não, toda vez que lembrar da Noruega vou fazer a associação com tragédia que aconteceu, o que é apenas parcial e insuficiente. Os noruegueses não merecem e não devem ser definidos ou se auto-definirem pelo que aconteceu.
A memória (1)
Há um provérbio que diz: "o verdadeiro sábio não esquece o começo do caminho". Então, resolvi recomeçar a estudar a memória do zero, de novo (é cíclico).
Para recomeçar, vamos aos dicionários:
a) Dicionário Etimológico:
memória, s.f. Latim memoria, memoris, "que se lembra" (CUNHA, 2001, p. 512).
b) Dicionário Aurélio
Memoria [do lat. memoria]. "faculdade de reter as idéias, impressões e conhecimentos adquiridos anterioremente. 2. Lembrança, reminiscência, recordação".
c) Há um sentido material para o termo "memória", que seria uma espécie de anel. Nessa acepção, Padre Manuel Bernardes define memória como o “anel evocador de qualquer fato memorável para a vida de um indivíduo”, assim exemplificando “as anecadas e chuveiros, os anéis e memórias, as jóias”... (MIRANDA, 1962, p. 147).
REFERÊNCIAS
CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. O dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
MIRANDA, Nicanor. Vocabulário do Padre Manuel Bernardes. Revista do Arquivo Municipal, São Paulo, CLXVIII, jul/set, 1962
Para recomeçar, vamos aos dicionários:
a) Dicionário Etimológico:
memória, s.f. Latim memoria, memoris, "que se lembra" (CUNHA, 2001, p. 512).
b) Dicionário Aurélio
Memoria [do lat. memoria]. "faculdade de reter as idéias, impressões e conhecimentos adquiridos anterioremente. 2. Lembrança, reminiscência, recordação".
c) Há um sentido material para o termo "memória", que seria uma espécie de anel. Nessa acepção, Padre Manuel Bernardes define memória como o “anel evocador de qualquer fato memorável para a vida de um indivíduo”, assim exemplificando “as anecadas e chuveiros, os anéis e memórias, as jóias”... (MIRANDA, 1962, p. 147).
REFERÊNCIAS
CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. O dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
MIRANDA, Nicanor. Vocabulário do Padre Manuel Bernardes. Revista do Arquivo Municipal, São Paulo, CLXVIII, jul/set, 1962
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quarta-feira, 27 de julho de 2011
Memorabilia
"Memorabilia" é um conjunto ou coleção de objetos materiais (coisas) às quais se atribui o poder de lembrar fatos ou pessoas.
Tal qual os talismãs, que portam poderes mágicos, há objetos que podem estimular a evocação de lembranças. Às vezes, o significado e o poder atribuído aos objetos é tamanho que se tornam, eles mesmos, objetos de veneração.
Um exemplo literário é o Santo Graal, o cálice usado por Jesus Cristo na Santa Ceia. Esse objeto é geralmente identificado com um cálice (um copo refinado), mas há quem diga, desde o Código da Vinci, que na verdade se trata de uma metáfora para o útero de uma mulher.
Veja bem: para encontrar o objeto é preciso antes de mais nada saber qual objeto estamos procurando. Depois, é preciso que ele esteja perdido, por exigência lógica: acontece que, se forem precisos os relatos, o cálice não está perdido, mas bem guardado em Valência, na Espanha.
Enfim, para os cristãos esse é um objeto dotado de grande significado, que vale a incessante veneração e proteção ao longo dos tempos, além de remeter ao explícito ato memorial da missa católica, sobre o qual conversamos no post: http://direitoamemoria.blogspot.com/2011/06/fazei-isso-em-memoria-de-mim.html
Por que esse cálice, e não todos os outros que Jesus Cristo usou, é considerado sagrado? Por que apenas sua mortalha, e não as vestimentas que o cobriram em vida, é considerada sagrada? Porque um dos aspectos de memorabilia é fazer referência a um momento que merece ser lembrado: a última ceia, a morte.
Existem outros exemplos menos sagrados de memorabilia. Objetos cotidianos, e até "abastardados" e ordinários, que se tornaram relíquias dignas de preservação porque lhes foi atribuído algum valor (OPPERMANN, 2006, p. 46-51). Basta que um bem pertença a alguém famoso para torná-lo valioso? Para muitos fãs de celebridades sim, que chegam a oferecer milhares de reais por bens que normalmente são baratos, como peças íntimas, instrumentos de higiene, e que não serão reutilizados para as finalidades a que destinam, mas tão somente guardados como relíquias.
Por que alguém guardaria o pênis de Napoleão ou de Rasputin? Ou o sabonete utilizado por um monarca, que guarda um suposto pelo da suposta real genitália, e por isso seria digno de estar em exposição?
Fixar a memória em objetos parece ser uma necessidade,ainda que por vezes manifestada de formas bizarras.
REFERÊNCIAS
OPPERMANN, Álvaro. Quer pagar quanto?. Aventuras na História, nº 38, p. 46-51, out. 2006.
Tal qual os talismãs, que portam poderes mágicos, há objetos que podem estimular a evocação de lembranças. Às vezes, o significado e o poder atribuído aos objetos é tamanho que se tornam, eles mesmos, objetos de veneração.
Um exemplo literário é o Santo Graal, o cálice usado por Jesus Cristo na Santa Ceia. Esse objeto é geralmente identificado com um cálice (um copo refinado), mas há quem diga, desde o Código da Vinci, que na verdade se trata de uma metáfora para o útero de uma mulher.
Veja bem: para encontrar o objeto é preciso antes de mais nada saber qual objeto estamos procurando. Depois, é preciso que ele esteja perdido, por exigência lógica: acontece que, se forem precisos os relatos, o cálice não está perdido, mas bem guardado em Valência, na Espanha.
Enfim, para os cristãos esse é um objeto dotado de grande significado, que vale a incessante veneração e proteção ao longo dos tempos, além de remeter ao explícito ato memorial da missa católica, sobre o qual conversamos no post: http://direitoamemoria.blogspot.com/2011/06/fazei-isso-em-memoria-de-mim.html
Por que esse cálice, e não todos os outros que Jesus Cristo usou, é considerado sagrado? Por que apenas sua mortalha, e não as vestimentas que o cobriram em vida, é considerada sagrada? Porque um dos aspectos de memorabilia é fazer referência a um momento que merece ser lembrado: a última ceia, a morte.
Existem outros exemplos menos sagrados de memorabilia. Objetos cotidianos, e até "abastardados" e ordinários, que se tornaram relíquias dignas de preservação porque lhes foi atribuído algum valor (OPPERMANN, 2006, p. 46-51). Basta que um bem pertença a alguém famoso para torná-lo valioso? Para muitos fãs de celebridades sim, que chegam a oferecer milhares de reais por bens que normalmente são baratos, como peças íntimas, instrumentos de higiene, e que não serão reutilizados para as finalidades a que destinam, mas tão somente guardados como relíquias.
Por que alguém guardaria o pênis de Napoleão ou de Rasputin? Ou o sabonete utilizado por um monarca, que guarda um suposto pelo da suposta real genitália, e por isso seria digno de estar em exposição?
Fixar a memória em objetos parece ser uma necessidade,ainda que por vezes manifestada de formas bizarras.
REFERÊNCIAS
OPPERMANN, Álvaro. Quer pagar quanto?. Aventuras na História, nº 38, p. 46-51, out. 2006.
IV Congresso Luso-Brasileiro de Cartografia Histórica
O evento tem como tema "Territórios: documentos, imagens e representações". A maneira de representar o território tem tudo a ver com a memória coletiva.
Dá uma olhada: http://eventos.letras.up.pt/ivslbch/default.aspx.
Falando em representar o território e memória coletiva, não posso deixar de lembrar dos dos aborígenes australianos e suas “trilhas dos sonhos”, verdadeiros mapas mentais construídos com base no nome cantado dos marcos geográficos (songlines), que servem não somente como forma de orientação no espaço mas também no tempo, uma vez que esses cantos são repassados através das gerações e permitem aos indivíduos reconhecer a origem do seu clã e o território ocupado. Esses caminhos também são chamados de “rastros de cantos”, “pegadas dos antepassados” ou “caminhos da Lei” (CHATWIN, 1996, p.9) e constituem-se em um excelente exemplo de prática memorial associada à paisagem.
Sobre esse assunto li um livro interessante: CHATWIN, Bruce. O rastro dos cantos. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
Dá uma olhada: http://eventos.letras.up.pt/ivslbch/default.aspx.
Falando em representar o território e memória coletiva, não posso deixar de lembrar dos dos aborígenes australianos e suas “trilhas dos sonhos”, verdadeiros mapas mentais construídos com base no nome cantado dos marcos geográficos (songlines), que servem não somente como forma de orientação no espaço mas também no tempo, uma vez que esses cantos são repassados através das gerações e permitem aos indivíduos reconhecer a origem do seu clã e o território ocupado. Esses caminhos também são chamados de “rastros de cantos”, “pegadas dos antepassados” ou “caminhos da Lei” (CHATWIN, 1996, p.9) e constituem-se em um excelente exemplo de prática memorial associada à paisagem.
Sobre esse assunto li um livro interessante: CHATWIN, Bruce. O rastro dos cantos. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
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