O brasileiro não tem memória.

Neste blog desmascaramos esta mentira.









terça-feira, 24 de março de 2026

Perna cabeluda

É muito estranho ver a nossa assombração local ser compartilhada no mundo todo e, mais estranho ainda, vê-la sendo tratada como uma metáfora.

Sim, a perna cabeluda foi um artifício para driblar a censura, permitindo que os jornalistas reportassem a violência cotidiana como se fosse um conto de terror, o que na verdade era.

Mas é preciso esclarecer que nós daqui realmente tememos as duas pernas cabeludas - tanto o disfarce da violência real, como a impressão que assombra a nossa memória coletiva.

Eu aprendi o medo que me foi transmitido, embora racionalmente sempre tenha apontado que, dentre todas as assombrações que habitam a minha cidade, a perna cabeluda certamente não era a mais assustadora.  Posso pensar rapidamente em umas dez que a ultrapassam na lista.

Minha pouca reverência baseia-se no fato de que eu sempre achei que era muito fácil esquivar da perna cabeluda, mas essa minha confiança ingênua não considerava que a vítima pode ficar paralisada com o choque ou pelos poderes da assombração, e daí não conseguir se defender dos chutes.

Só comecei a ter medo real da perna cabeluda quando entendi o que significava sofrer violência e ser obrigado a calar-se, que é o que acontece quando a democracia vai embora e nos deixa indefesos.

Vivemos em um mundo em que as assombrações estão vivas na memória coletiva e sempre rondando. Algumas nós entendemos e deixamos habitar a imaterialidade que enriquece a vida e dá o pretexto para conversar e contar estórias.

Às outras devemos estar sempre atentos.

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