O brasileiro não tem memória.

Neste blog desmascaramos esta mentira.









terça-feira, 2 de setembro de 2014

Maxixe, uma dança proibida

Nessa semana me entreguei ao desatino do maxixe.

Apesar de não estar na lista das minhas obrigações de leitura de 2014, perdi a cabeça e parei tudo que estava estudando para ler o livro "Maxixe, a dança excomungada" de Jota Efegê (João Ferreira Gomes), edição 1974, que já andava no meu radar de interesse há muito tempo.

O maxixe é uma manifestação muito, muito interessante, especialmente por conta da sua origem espúria, clandestina, associada às baixas classes sociais urbanas do Rio de Janeiro.  Diz-se que o maxixe era uma forma erotizada de dançar as músicas da época (polca, habanera, tango), o que fazia dela uma dança escandalosa e rebolativa demais para os padrões morais vigentes.

Era associado com tudo que não prestava: "maxixe" era o clube clandestino onde os baixos instintos afloravam, da maneira mais indecente e crocante possível.  Em seguida, como adjetivo, passou a denotar tudo o que achincalhava a moral e os bons costumes.

Apesar de indecente e vulgar (ou talvez por isso mesmo), o maxixe virou moda e acabou se difundindo até chegar a, escandalosamente, ser tocado em uma festa da Presidência pela primeira-dama do Brasil Nair de Teffé  (http://www.revistadehistoria.com.br/secao/retrato/corta-jaca-o-escandalo-do-palacio), o que motivou a revolta dos defensores dos bons costumes, entre eles, Ruy Barbosa.

O motivo da polêmica foi o "tango" amaxixado "Corta-jaca" (Gaúcho), de Chiquinha Gonzaga, executado no violão (imagine!) pela primeira-dama. Essa quebra de protocolo foi considerada um escândalo, e, olhem, que aparentemente a dança sem-vergonha nem foi executada.

O maxixe tem aspectos tão peculiares... Observe:  uma música/dança espúria teve como intérpretes mais constantes as bandas militares que, acredito, contribuíram para a sua difusão e preservação, já que os militares se deslocam muito no território brasileiro.

Para conhecer um pouco da música e da dança, essa reportagem é interessante: https://www.youtube.com/watch?v=NN0Cw-e2GOc. Ela é contemporânea ao livro que acabei de ler, e nela o autor aparece falando sobre o maxixe.

Não acredito que a dança fosse por si só tão vulgar.  Acho que o ambiente em que ocorria contribuiu muito para a sua má-fama, porque havia outros vícios envolvidos, especialmente o álcool e a libertinagem geral que ele proporciona.  É claro que o fato dos parceiros dançarem muito juntos, praticamente enfiados um no outro, se esfregando e requebrando juntos com insinuações eróticas (ou o que os olhos da época assim viam), também ajudou.

O fato é que a dança virou moda e chegou à França, onde recebeu o nome de "la Mattchiche".  Procurando algum vídeo com a forma tradicional da dança (e não o amaxixamento do forró, como parece ser comum hoje em dia), encontrei essa versão francesa (https://www.youtube.com/watch?v=keFiENu-NQU).  Talvez essa tenha sido a forma "purificada e elegante" que chegou por lá pelos pés do maxixeiro Duque, mas dá a idéia de alguns passos tradicionais.

Acredito que o maxixe iniciou uma tradição de "danças brasileiras proibidas", das quais também são exemplos a lambada e o funk de alguns bailes, danças extremamente erotizadas.  Isso diz muito sobre nós, porque penso que esse impulso de dançar é uma característica identitária do brasileiro (http://direitoamemoria.blogspot.com.br/2013/03/conhece-te-ti-mesmo-brasil-3-questao-da.html), e que eventualmente será manifestada através de requebros radicalmente erotizados, daí o surgimento periódico de danças proibidas.

Além disso, depois de tudo que venho estudando, passei a acreditar que o maxixe era o elemento-chave que faltava e a partir do qual tudo começou a fazer sentido para mim. Quer entender como o Brasil funciona? É só incluir o fator "maxixe" na equação.

10 comentários:

  1. Precipitada e irresponsavelmente, vou afirmar que o tal jeitinho brasileiro é o maxixe. Muda o andamento, sincopa, quebra as cadeiras e erotiza qualquer coisa, e aí nos tornamos brasileiros.

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  2. Continuo concordando comigo, mesmo reconhecendo que a generalização do comentário anterior pode ser precipitada. Que ver um exemplo de mentalidade que amaxixa? https://catracalivre.com.br/geral/humor/indicacao/brasileiros-invadem-pagina-no-facebook-da-joalheria-australiana-bunda/

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  3. Detesto aquela expressão "eu avisei...". Mas, eu avisei. Até as metáforas aqui são erotizadas: http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/%E2%80%9Cse-acabar-o-foro-e-para-todo-mundo-suruba-e-suruba%E2%80%9D-diz-juca/.

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  4. A sensação hoje no Brasil é de fim dos tempos. E como as pessoas se referem a isso? "Pega fogo, Cabaré", "não tem defesa, é batom na cueca".

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  5. As danças proibidas pelo mundo. https://br.noticias.yahoo.com/jap%C3%A3o-toma-medidas-proteger-8-l%C3%ADnguas-perigo-extin%C3%A7%C3%A3o-235959083.html

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  6. Marietta Baderna, bailarina italiana que veio ao Brasil no sec XIX e aqui se estabeleceu, costumava incorporar as rebolativas danças em seus espetáculos. Causava tanta agitação que o seu nome, "baderna", virou sinônimo de confusão.

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  7. Sensacional! Muito bom conhecer a história do maxixe.

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